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Em histórias infantis é comum esperar um final onde todos vivem felizes para sempre. No entanto, a idade adulta traz o conhecimento de que a vida real é mais complicada que as histórias. Ela nem sempre proporciona finais felizes, pelo simples fato de que não proporciona finais.

“A ideia de finais felizes como valor literário adequado para crianças é uma ilusão”. – Geraint Rowland

Ilustração de Frank Dicksee, The Cornhill magazine, vol. 39

 

Ou, pelo menos, a vida tem só um final. Como Margaret Atwood identificou:

“O único final autêntico é o contado aqui: João e Maria morrem. João e Maria morrem. João e Maria morrem.”

As narrativas, por outro lado, requerem um desfecho. Quando uma história é descrita como tendo um final feliz, é fácil pensar em um “felizes para sempre” de contos de fada. Ou seja, a história padrão com um final feliz é romântica, heterossexual e concluída no momento do casamento.

Ilustração de Byam Shaw, Selected tales of mystery (1909)

 

Mas quando isso se tornou padrão? A ideia de final feliz como valor literário adequado para crianças é uma ilusão por praticamente todos os ângulos possíveis. A maioria dos contos de fada são repletos de aspectos sombrios e violência e, muito frequentemente, não têm um final feliz.

“Os bons têm final feliz, os maus têm finais infelizes, é isso que significa a ficção”, conforme exemplificado por Oscar Wilde. Quase todas os seus contos de fada têm finais horríveis.

De fato, as histórias para crianças sempre tiveram conclusões distintas. As heroínas de Perrault e dos Irmãos Grimm algumas vezes acabam casadas, outras vezes devoradas. O que acontece é que suas histórias mais conhecidas são as felizes. As histórias de Hans Christian Andersen acabam em tristeza com mais frequência (A Pequena Vendedora de Fósforos, O Soldadinho de Chumbo) ou não são sobre romances (O Patinho Feio, Pequeno Claus e Grande Claus).

Ilustração de Gordon Browne, Fairy tales from Hans Andersen (1919)

 

No mundo real, as crianças têm experiências traumáticas e, geralmente também as infligem sobre seus pares. Escolher contar a elas histórias que neguem isso diz muito a respeito do que os adultos querem acreditar sobre a infância, em vez de falar sobre a própria compreensão das crianças sobre o mundo.

A questão para pais e professores de crianças com vidas confortáveis se refere à tensão entre o desejo de oferecer às crianças uma fase na vida sem o peso das preocupações e a necessidade de ajudá-las a desenvolver empatia.

Quão preparados estamos para contar àqueles que não sofrem que o sofrimento de fato existe e que algumas pessoas nunca deixam de sofrer?

Histórias para crianças pequenas se atêm ao preceito de final feliz quase sem desvios, mas as exceções são dignas de nota. destinado a crianças nos primeiros anos do ensino fundamental, apresenta a ideia de lidar com a morte de um ente querido. Sadako e os Mil Pássaros de Papel (1977), de Eleanor Coerr, trata de uma jovem heroína com leucemia que nunca tem seu desejo de cura atendido e oferece um dos primeiros exemplos de um verdadeiro final triste em um romance para crianças.

Poucos livros infantis subvertem deliberadamente a expectativa de final feliz. Lemony Snicket (1988) repudia constantemente qualquer expectativa de final feliz e pede que os que buscam finais felizes procurem em outro lugar:

“Sinto muito dizer que o livro que você tem nas mãos é bastante desagradável.”

Ilustração de Arthur Rackham, Undine (1919)

 

No mundo mais sombrio da literatura jovem adulta, as conclusões narrativas tornam-se cada vez mais complexas e alguns romances apresentam finais realistas ou até mesmo distópicos. Bunker – Diário da Agonia (2013), de Kevin Brooks, é um livro sem final feliz em que o protagonista morre sem descobrir um significado para o seu sofrimento nas mãos de um psicopata. O livro recebeu uma Carnegie Medal e provocou uma forte reflexão sobre a que as crianças deveriam ser expostas.

Se é possível que os contos de fada e os livros de literatura infantil tenham finais infelizes, de onde tiramos a impressão de que os finais felizes são a norma? De fato, não são os clássicos infantis que insistem em finais felizes, e sim suas versões cinematográficas modernas.

É Hollywood que não pode aceitar a ideia de algo diferente da felicidade perfeita. Os filmes custam muito dinheiro e um final feliz é, de longe, o investimento mais seguro. James Bond, sempre aprumado e imperturbável, salva o mundo e fica com a(s) garota(s), e nas comédias românticas é apenas uma questão de tempo até o protagonista atraente e a vizinha discretamente sexy passarem por uma série de trapalhadas e admitirem sua inevitável atração.

Ilustração de Byam Shaw, Selected tales of mystery (1909)

 

Não surpreende que esses filmes sejam interessantes e que de vez em quando até mesmo os cinéfilos mais puristas também sejam atraídos por eles, apesar de saberem que os sucessos de Hollywood reforçam o status quo, invariavelmente perpetuando as hegemonias ocidentais que privilegiam noções de capitalismo, brancura, masculinidade e heterossexualidade acima de tudo.

Começa a parecer mais provável que a insistência dos filmes convencionais em finais felizes infiltrou-se no que oferecemos às crianças, em vez de as histórias infantis terem influenciado os filmes.

Contanto que as crianças tenham acesso a livros tanto quanto aos filmes comerciais, haverá margem para que descubram que os finais perfeitos e “felizes para sempre” são apenas um aspecto das narrativas e que há muitas outras conclusões possíveis, mais diversificadas e complicadas.

 

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Georgina Ledvinka é assistente de reitoria e professora de Literatura Inglesa, Universidade de Notre Dame, Austrália. Anna Kamaralli é professora de Estudos Teatrais, UNSW Sydney, Austrália
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