Cumberbatch e Downey Jr. se investigam em trajes civis depois de atuarem como Sherlock Holmes no cinema e na TV, respectivamente. Um aponta o dedo para o outro.

Cumberbatch e Downey Jr. se investigam em trajes civis depois de atuarem como Sherlock Holmes no cinema e na TV, respectivamente.

Quem lê ou assiste histórias de detetive, provavelmente não pensa nelas como uma manifestação dos princípios da economia.

Mas, no fundo, é exatamente isso o que são. Não apenas as histórias de detetive, mas obras de ficção de todos os gêneros estão repletas de ideias sobre economia: a lei de oferta e procura, o custo marginal.

Meu interesse pela conexão entre economia e literatura começou em 1964, durante uma pesquisa sobre Persuasion (Persuasão), de Jane Austen. Uma fonte acadêmica que da época argumentava que a linguagem do romance se valia da terminologia econômica e que moldava metáforas de negociações financeiras (românticas) subjacentes à história.

Pouco depois, li The Moon Is a Harsh Mistress, de Robert Heinlein, e aprendi a expressão “Não existe almoço grátis” — uma referência ao custo de oportunidade, o princípio de que absolutamente tudo custa alguma coisa. Aquilo me fisgou.

 

Economia e literatura

Alguns princípios econômicos são fáceis de encontrar na literatura. Custo de oportunidade, por exemplo, também é uma ideia crucial em The Bell Jar (A redoma de vidro), de Sylvia Plath. A protagonista cai progressivamente em depressão ao perceber que não pode ter tudo.

Em outro grande drama, The Piano Lesson, de August Wilson, um irmão e uma irmã brigam pela posse de um piano — para ela, um precioso legado familiar; para ele, algo valioso a se comercializar para adquirir a terra em que a família havia sido escravizada.

A escassez, um dos 51 conceitos-chave da economia ensinados aos calouros do curso aparece nas disputas por combustível e alimento na série de filmes Mad Max. The Hungry Ocean, de Linda Greenlaw, é praticamente um curso de economia, abrangendo temas como a lei de oferta e procura, direito de propriedade (a “a tragédia dos comuns”), custos trabalhistas e — meu favorito — margens: custos marginais de combustível, tempo e trabalho versus a remuneração marginal do último peixe pescado.

A lista prossegue: riscos de empréstimos contados por Shakespeare em The Merchant of Venice (O mercador de Veneza); a ascensão da classe média, um dos temas em Canterbury Tales (Contos da Cantuária), de Geoffrey Chaucer; e praticamente tudo de Charles Dickens.

 

Assimetria da informação e história de detetive

Mas e quanto à assimetria da informação, conceito que postula que algumas negociações não são justas porque uma das partes possui mais informações do que a outra? (como os vendedores nas concessionárias de  carros.)

Por não fazer parte da economia clássica, não foi definida até os anos 1970, quando revolucionou o campo graças ao trabalho de George Akerlof, Michael Spence e Joseph Stiglitz, ganhadores do Prêmio Nobel de 2001. Por ser um conceito relativamente novo, nenhum exemplo literário óbvio vem à mente. Exceto, claro, a história de detetive.

As histórias de detetive não são meramente sobre economia. De certa forma seguem muitas das mesmas estruturas de pensamento e prenunciam o trabalho desses economistas séculos antes de ganharem o Nobel.

Em quase todas as histórias de detetive um crime foi cometido e a ordem social foi perturbada. O criminoso possui todas as informações; o detetive (o leitor), nenhuma.

Vemos no economista um tipo investigativo, que desvendam mistérios, o que deu errado com nosso dinheiro e para onde foram os empregos? Economistas ainda tentam descobrir os mistérios motivadores da Grande Depressão.

O processo, ou trama, desse tipo de história impele o detetive — o agente do leitor — a seguir pistas e trazer seu conjunto de informações  equilibrado com o do criminoso — que costuma estar em uma posição de poder. O detetive usa inteligência e, às vezes, força bruta. Quando soluciona o crime, restaura a ordem.

William Breit e Kenneth G. Elzinga, escritores de romances de detetive com princípios econômicos, sob o pseudônimo Marshall Jevons, produziram uma análise paralela em que argumentam que “toda boa análise econômica é estruturada como uma clássica ficção detetivesca”.

Matthew Mcconaughey em cena da série de TV True Detective (HBO).

Matthew Mcconaughey em cena da série de TV True Detective (HBO).

De Édipo a True Detective

Édipo Rei, de Sófocles, é frequentemente classificada como a história de detetive original. Escrito no século 5, a.C., atualmente parece algo pós-moderno — o detetive e o assassino são a mesma pessoa. Como os detetives atuais, Édipo tenta descobrir o assassino procurando evidências e interrogando testemunhas.

Nos admiramos com Sherlock Holmes porque, para resolver as coisas, ele força sua própria mente a se fundir com a do criminoso — uma espécie de simetria macabra.

O formato das histórias de detetive varia. O mistério inglês da sala de estar é o mais simples. Os personagens são em sua maioria unidimensionais e dispensáveis. O leitor não se importa se o corpo é da duquesa ou do industrialista; o foco está no enigma. Um dos princípios que o leitor tente descobrir “quem foi”. Ser mais esperto que o detetive. Ao final, tudo se resolve.

Em uma famosa variação, o espectador sabe, desde o começo, quase tanto quanto o assassino — mas o detetive, não. Columbo nos fazia sentir a tensão de descobrir o que nós, secretamente, sabíamos do crime.

A série policial Motive usa da variação de Columbo ao nos mostrar o assassino e a vítima antes do crime ser cometido. Sabemos quem foi; a polícia tem de descobrir; ambos temos que desvendar o porquê.

Por falar em procedimentos policiais, as franquias Law & Order e CSI são as tentativas mais metódicas, sistemáticas e até científicas de restauração da ordem através de conhecimento.

Versões pós-modernas da história de detetive incluem The Death of the Detective, de Mark Smith, na qual o detetive se corrompe, aparentemente cometendo os crimes que tenta solucionar. Ainda mais complexo é The Erasers, de Alain Robbe-Grillet, que subverte clichês do gênero, de linha narrativa ao motivo, para contrastar o assassino e o investigador. A The New York Trilogy (Trilogia de Nova York), de Paul Auster, funde o detetive com o escritor do mistério. No final do filme Night Moves (Um lance no escuro), de 1975, o detetive interpretado por Gene Hackman, arrasado pela revelação, é deixado, literalmente, vagando num vasto oceano.

A versão popular mais perturbadora desse tipo de história é o mistério noir, identificado por detetives durões como Sam Spade, Philip Marlowe e Lew Archer. Nessa variante, o mundo já não era como antes desde as primeiras linhas, e não é completamente endireitado ao final. A curiosidade do detetive — e do leitor — é satisfeita, mas seu senso de justiça e o sentimento do que é certo e errado, não.

O mistério se passa num mundo sombrio e corrupto — um tipo ambiente desenganado. O detetive é encarregado de encontrar algo ou alguém, mas até mesmo a pessoa que o contrata age de forma suspeita e retém informações deliberadamente. Logo, o detetive faz sua busca em múltiplos níveis, tentando sair do labirinto. Ao desvendar o mistério, o que ele encontra é mais escuridão.

Se o economista em busca de respostas tenta controlar as variáveis, o detetive deve tentar fazer o mesmo, mas sua versão contemporânea tem ainda menos chances em um universo fora de controle.

Assista a True Detective, da HBO, com base neste último modelo. Na narrativa de cada temporada o mundo já não está íntegro desde o começo. Os detetives partem para resolver seus casos, mas o desfecho correto é subvertido por homens poderosos que controlam os superiores dos investigadores. Finalmente, encontram e punem os assassinos, mas as pessoas que protegeram os criminosos ainda estão no poder. Os detetives e os espectadores têm conhecimento quase total de quem fez o quê, mas não faz diferença. Somos esquecidos em um mundo nojento.

Diversos atores que interpretaram Sherlock Holmes no cinema.

Diversos atores que interpretaram Sherlock Holmes no cinema.

 

O fim dos detetives?

O que economistas podem apreender bisbilhotando e os detetives ficcionais?

Alex Tabarrok e Tyler Cowen, economistas na George Mason University, disseram recentemente que a riqueza de informações disponível atualmente faz da assimetria de informações uma coisa do passado. Todo mundo se torna seu próprio detetive porque há uma versão do Carfax para tudo — seja para saber do histórico de um carro usado ou de algum pretendente. Não há mais segredos. Será que essa nova realidade fará com que as histórias de detetive desapareçam?

Não. Na literatura, como na vida, sempre há uma assimetria de informação. A pergunta definitiva no cerne das tramas detetivescas — e em toda literatura —, é: quem sou eu e o que significa tudo isso? Para essa pergunta nunca haverá informações suficientes. A busca pelas pistas jamais terminará.

 

Frank Edmund Smith é professor emérito de Literatura Inglesa no Harper College
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