Fotografia de espírito de Arthur Conan Doyle tirada pela “fotógrafa espiritual” e médium Ada Deane, em 1922,n o mesmo ano em que The Coming of the Fairies de Conan Doyle foi publicado — Fonte.

 

Sir Arthur e as fadas

Na primavera de 1920, após perder o filho e o irmão na Primeira Guerra Mundial, sir Arthur Conan Doyle ficou cada vez mais fascinado pela ascendente corrente do espiritualismo e interessou-se pelo caso das fadas de Cottingley. Mary Losure conta como o criador de Sherlock Holmes ficou convencido de que as “fotos de fadas” tiradas por duas garotas de Yorkshire eram reais.

No inverno de 1920, a popular revista britânica The Strand estampou uma manchete curiosa na capa da edição de Natal: “Fadas fotografadas — Um evento extraordinário descrito por A. Conan Doyle”. Os leitores do periódico já conheciam bem Arthur Conan Doyle por suas muitas e extremamente populares histórias de Sherlock Holmes publicadas originalmente naquelas páginas. A afirmação do grande autor de que fadas — reais! — haviam sido fotografadas no norte da Inglaterra por duas jovens meninas foi recebida com surpresa. Porém, infelizmente para Conan Doyle, a maior parte dessa surpresa foi do tipo “o que houve com ele?”. Como era possível que o criador do detetive mais famoso do mundo, imune à enganação, houvesse se convencido de que fotos de “fadas” eram verdadeiras? Vamos examinar a questão, como faria Holmes.

 

Primeiro erro: interpretação equivocada da evidência

Em defesa de Conan Doyle, ele fez o que era (para ele) uma investigação profunda, científica e minuciosa das fotos das “fadas”. Como primeiro passo, consultou especialistas em escritórios da George Eastman Kodak Company, em Londres. Os especialistas examinaram réplicas das duas primeiras fotos das “fadas” e disseram a Conan Doyle que não conseguiram encontrar nenhuma evidência de edição na foto. Ainda assim, ressaltaram que alguém que entendesse o bastante de fotografia poderia tê-las manipulado.

Na mente de Conan Doyle, essa informação descartava as meninas fotógrafas de Yorkshire, Elsie Wright e Frances Griffiths. “Argumentei que tínhamos localizado, com certeza, as fotógrafas: duas crianças de classe artesã (trabalhadora), e que tais truques certamente estavam além de suas capacidades”, escreveu Doyle. Garotas da classe trabalhadora certamente não estariam por trás de tamanha enganação…

 

Segundo erro: nosso homem fora de foco

Seu próximo passo foi investigar a cena do crime — porém ele não foi pessoalmente. Em vez disso, contratou um substituto nada imparcial, o efusivo crente em fadas chamado Edward Gardner, para realizar a missão. Gardner já havia falado com várias pessoas que asseguravam que as meninas brincavam com fadas e elfos desde bebês. Ele escrevera para a mãe de Elsie Wright, implorando que fizesse a “garotinha” tirar mais fotos. “Tenho certeza de que fadas existem”, escreveu Gardner numa das várias cartas que enviou para a mãe de Elsie. “E que, por serem muito tímidas, dificilmente aparecem ou aproximam-se de adultos. Somente com ajuda de ‘amigos’ alguém pode receber fotos e, assim, chegar a um melhor entendimento sobre os mistérios da Natureza.” Gardner explicou para a mãe de Elsie que desejava, há anos, obter fotos de “fadas, duendes, elfos e, se possível, leprechauns e gnomos.”

Então não é surpresa que, quando Gardner visitou a família Wright na vila de Cottingley, em Yorkshire, não viu motivo para suspeitar que houvesse qualquer manipulação nas fotos. Ele falou com os pais de Elsie, que — não sabendo se as fotos haviam sido falsificadas ou não — lhe deram respostas honestas e sinceras. Contaram a Gardner tudo que sabiam: que as duas meninas haviam pedido emprestado a máquina fotográfica do pai de Elsie e descido até um pequeno vale escondido atrás da casa onde Frances, prima mais nova de Elsie, acreditou ter visto fadas. As meninas voltaram pouco depois com os negativos, que o pai de Elsie revelou no quarto escuro da própria casa: era a primeira foto das fadas.

A primeira fotografia de fada, apresentada em The Coming of the Fairies (1922) de Conan Doyle — Fonte.

Como parte da investigação, Gardner foi com Elsie até o exato lugar onde a foto havia sido tirada, em frente a uma cachoeira. Ficou contente por ter a chance de questionar a menina sozinho, como reportou mais tarde para Conan Doyle. Perguntou a Elsie de que cores as fadas eram e ela lhe disse que eram “do tom mais pálido de verde, rosa e malva”, escreveu Gardner a Conan Doyle. Elsie também contou sobre o gnomo na segunda foto, que usava calças pretas justas, um casaco marrom avermelhado e um chapéu vermelho pontudo. Quando Gardner lhe perguntou sobre as marcas nas asas do gnomo — tanto Conan Doyle quanto Gardner achavam que eram parecidas com as de uma mariposa — Elsie explicou que não eram marcas nas asas, mas flautas. Disse também que em dias silenciosos era possível ouvir o som fraco e agudo da música dos gnomos. Depois disso, Gardner reportou a Conan Doyle que a “honestidade transparente e a simplicidade” da família o havia convencido que as fotos eram genuínas.

Elsie e o gnomo, em The Coming of the Fairies (1922) de Conan Doyle — Fonte.

 

Terceiro erro: Conan Doyle e Gardner se enganam quanto a Elsie Wright

Para Gardner, Elsie parecia uma “menina bonita e tímida de uns dezesseis anos”. Mas quando se conheceram, ela já tinha dezoito anos, quase dezenove, e há tempos sonhava em ser artista. Foi Elsie quem pintou as fadas em aquarela, prendeu-as a alfinetes de chapéu e as posicionou na floreira em frente de Frances. Foi Elsie quem, usando uma câmera complicada e antiga para tirar a primeira foto de sua vida, conseguiu capturar a imagem estranha e assombrosa que ficaria marcada na história como “A Primeira Foto de Fadas de Cottingley”. Gardner também viu algumas das aquarelas de Elsie expostas na parede da casa dos pais. Ainda assim, insistiu que ela não era uma artista boa o bastante para ter desenhado as fadas nas fotos. Conan Doyle acreditou nele.

 

Quarto erro: fabricando a evidência

Durante sua visita a Cottingley, Gardner implorou aos pais de Elsie para convencê-la a tirar mais fotos. Elsie insistiu que não era possível porque Frances precisava estar presente para que as fadas aparecerem — na época, Frances tinha se mudado de Cottingley para uma cidade na costa de Scarborough. Irredutível, Gardner fez um acordo com os pais de Frances para que ela passasse as férias de verão em Cottingley. Pressionadas, nenhuma das garotas pôde recusar. Quando Frances então chegou a Cottingley e ambas ficaram sozinhas, Elsie contou para a prima que havia preparado mais dois desenhos de fadas, um para cada uma delas. No vale secreto, as duas meninas tiraram mais duas fotos. Depois concordaram, em segredo, que nunca tirariam outra foto de fada.

A fada dançarina, em The Coming of the Fairies (1922) de Conan Doyle – Fonte.

 

A fada de Hairbell, em The Coming of the Fairies (1922) de Conan Doyle — Fonte.

Gardner ficou maravilhado ao conseguir duas fotos novas, e ainda mais animado com uma terceira foto, uma que Elsie não havia falsificado. As duas garotas acharam, na ocasião, que era apenas um ninho de pássaro, uma chuva fina, algumas sombras e formas — mas Gardner insistiu que a foto mostrava fadas. Conan Doyle também.

Um segundo artigo na Strand, publicado em março de 1921, anunciou: “A evidência da existência de fadas por A. Conan Doyle com novas fotos”. No artigo, Conan Doyle citava a convicção de Gardner de que a terceira e mais incrível foto era de um ninho de fadas. Conan Doyle também incluiu um comentário de Gardner, que dizia: “Agora conseguimos trazer essa revelação esplêndida.” A matéria não dizia o que Gardner quis dizer com “revelação”.

O homem que criou o maior detetive do mundo não fazia ideia de como sua investigação tinha perdido o rumo. Elsie e Francis, em parte para não envergonhá-lo, guardaram segredo quanto aos desenhos até muito depois da morte de Conan Doyle. Elsie se lembrava de ter visto uma vez um desenho “cruel” de Conan Doyle em uma revista, e então percebeu o quanto ele queria que as fotos de fadas fossem reais. Se fossem, seriam a primeira evidência sólida de que uma nova ordem de seres invisíveis existiam no mundo, conforme Conan Doyle escreveu em “O mistério das fadas”, um livro que incluía as duas matérias publicadas em The Strand.

“Não há nada de cientificamente impossível. Em meu entendimento, o fato de que algumas pessoas vejam coisas que são invisíveis para outras é natural”, escreveu Conan Doyle. Ele admitiu que levaria certo tempo até que “o ocupado homem comum” percebesse que “essa nova ordem de seres vivos está realmente estabelecida e que precisa ser levada à sério, assim como os pigmeus da África Central.”

“A ciência vitoriana deixou o mundo áspero e vazio, como a superfície da lua,” escreveu Doyle. Mas agora, com a chegada das fadas, tudo havia mudado. “Algumas consequências disso são óbvias,” escreveu. “As experiências infantis serão levadas mais à sério. Novas câmeras virão. Outros casos devidamente autentificados surgirão. Esses seres que parecem ser nossos vizinhos, com apenas uma pequena diferença de vibração que nos separa, se tornarão familiares.”

A crença de Doyle no espiritismo, reuniões mediúnicas e no “mundo espiritual” é bem conhecida. Ainda assim sua crença inabalável nas Fadas de Cottingley é às vezes encoberta ou até mesmo ignorada por seus biógrafos. Não deveria. Trata-se de um vislumbre significativo do caráter do homem tantas vezes confundido com seu herói frio e racional.

As ilustrações de fadas de que Frances e Elsie basearam suas figuras recortadas, de “Um Feitiço para uma Fada”, de Alfred Noyes, publicado no livro Princesa Maria Presente (1915) — Fonte.

Autora de “O anel de fadas: ou Elsie e Frances enganam o mundo” (Candlewick, 2012), listado no Booklist Editors’ Choice Best Youth Nonfition, 2012, e “Garoto selvagem: a verdadeira vida do bruto de Aveyron”. Visite seu site (www.marylosure.com) e veja o book trailer de Garoto Selvagem no YouTube.
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