Ilustração de William Booth “In Darkest England and the Way Out” [A solução para a sombria Inglaterra]. Embora cópias do diagrama tenham sido incorporadas ao livro homônimo de sua autoria, esta cópia foi publicada como um suplemento na The Review of Reviews de novembro de 1890 — Fonte.

A primeira saudação ao leitor no livro de William Booth, In Darkest England and the Way Out (1890), que versa sobre a pobreza na Inglaterra vitoriana, é um “diagrama” elaborado com detalhes impressionantes. A imagem é uma litografia que se desdobra para fora do livro como um pequeno pôster. Ao mesmo tempo é uma representação gráfica, um registro estatístico, uma ilustração da situação do país e do modelo de salvação imaginado por Booth. Na parte inferior da imagem o artista retrata “três milhões de pessoas ao mar” afogando-se sob uma variedade de pecados e depravações, debatendo-se entre ondas rotuladas como “embriaguez”, “escravidão”, “estupro”, “infanticídio”, “prostituição”, “assassinato”, “ilegitimidade”, “divórcio”, “deserção de esposas”, “suicídio”, “apostas”, “sem-teto” e, curiosamente, “suor”. Nos rochedos em ambos os lados os oficiais do Exército da Salvação ajudam as pessoas a saírem da água e as conduzem para a “Cidade Colônia” onde terão oportunidades em “abrigos”, “padarias” e “armazéns de comida barata”; e encontrarão trabalho fixo e morarão em lares para “casais”, “meninas”, “alcoólatras”, “solteiras”, “crianças” e “sem-teto”.

A partir daí, caminhos desobstruídos levam ao espaço verde e pacífico da “Colônia Agrícola”. Mais além, à distância a “Colônia do Outro Lado do Mar”, com rotas em direção às possessões britânicas, aos Estados Unidos e a “todas as partes do mundo”. Duas colunas emolduram a imagem utópica de reforma social apresentando dados numéricos sobre “prostitutas” (mais de trinta mil em Londres e cem mil na Grã-Bretanha); “criminosos” (32 mil presos); “bebidas” (“Há meio milhão de alcoólicos na Grã-Bretanha”) e “tráfico de bebidas” (120 mil “lojas de bebidas licenciadas”); “destituição” (993 mil); “os pobres” (cem mil sem-teto) e “miséria” (190 mil em workhouses). As bases das colunas informam que 2.297 pessoas se suicidaram e que 2.157 foram encontradas mortas no ano anterior. Nos rodapés, um cortejo de pecados, desde “injúria” e “fornicação” até “calúnia” e “avareza”.

Detalhe das águas pecaminosas da ilustração de William Booth “In Darkest England and the Way Out” — Fonte.

 

Detalhe do farol de salvamento da ilustração de William Booth “In Darkest England and the Way Out” — Fonte.

Esse retrato de flagelo e reabilitação comunal delineia um movimento da opressão à liberação, não apenas no desvio do pecado, mas também na fuga de recintos escuros para espaços abertos e iluminados. De muitas maneiras, a imagem imita o “Juízo Final” de Michelangelo e outras obras de arte cristãs que justapõem à aflição dos corpos dos condenados os corpos celestiais dos redimidos e a glória de sua ascensão. O movimento de salvação também ecoa na estrutura do livro. A primeira parte intitula-se “A escuridão” e a segunda parte, “Libertação”. É um movimento que também fala do modelo de colonização: as almas sucumbentes são retiradas do mar para que possam desfrutar de uma vida melhor em um espaço colonizado projetado especificamente para educá-los, reabilitá-los, empregá-los e civilizá-los.

Um quarto de século antes, em 1865, William Booth (1829-1912) e sua esposa, Catherine Mumford Booth (1829-1890), haviam fundado a Christian Mission em Whitechapel, a organização que mais tarde se tornaria o Exército da Salvação. Harold Begbie, que escreveu uma biografia de William Booth em 1920, na qual relata que “no início de sua carreira em Londres William Booth tinha uma solução, e somente uma, para o sofrimento da humanidade: o Evangelho”. De acordo com Begbie, Booth reconheceu, no entanto, “como as condições econômicas podem oprimir e sufocar a alma até que as funções naturais de amor, devoção e aspiração sejam quase completamente inibidas”. Apesar de Booth promover uma combinação de ensinamentos religiosos e reforma social radical como o meio de salvação dos pobres da Inglaterra, ele ainda considerava o resgate das almas o principal trabalho do “Exército”. A ênfase na salvação das enfermidades sociais como pobreza e vício está melhor encapsulada neste trabalho do que em seu best-seller de 1890. William T. Stead (1849-1912), editor jornalístico responsável pelo controverso “Maiden Tribute of Modern Babylon” [Tributo da donzela da Babilônia moderna] sobre prostituição infantil, escreveu grande parte de In Darkest England and the Way Out, embora o livro tenha sido publicado somente com o nome de Booth. A ideia central do trabalho — a imagem incomum de uma Inglaterra necessitada de “colonização” — também é, em sua maioria, de Stead.

Booth escrevendo, 1910 — Fonte.

Ao retratar a Inglaterra como um lugar repleto de violência, depravação e vício, Booth a compara à África, percebida por muitos de seus compatriotas naquela época como um lugar de trevas carente de salvação. Essa imagem da África como o “continente das trevas” e, inclusive, o próprio título do livro de Booth se inspiram no relato popular e melodramático do explorador H. M. Stanley, In Darkest Africa [Na mais sombria África], no qual relata sua malfadada viagem àquele continente, publicado anteriormente naquele mesmo ano. Booth coteja explicitamente seu texto com o de Stanley, descrevendo um “paralelo africano” e encorajando seu público a aplicar suas visões cristalizadas do povo e da cultura da África sobre os pobres da Inglaterra. Após citar extensamente as descrições da paisagem e do povo do Congo de Stanley, Booth apresenta sua posição: “É um cenário terrível entalhado no coração da civilização. Porém, ao refletir sobre a péssima representação da vida como ela é na vasta selva africana, tive a impressão de enxergar um retrato demasiado vívido de muitas partes da nossa própria terra. Assim como há uma África mais sombria, há também uma Inglaterra mais sombria?”. Ele destaca similaridades entre os dois lugares argumentando que, ao passo que na África “tudo são árvores, árvores e mais árvores” impenetráveis e escuras, em Londres “tudo é vício, pobreza e crime”. Ao passo que “os traficantes de marfim […] exercem sua prática brutal sobre os habitantes desafortunados das clareiras […], os publicanos […] prosperam sobre a fraqueza de nossos pobres”. Ele prossegue evocando imagens comoventes para conectar os dois continentes:

Sem dúvida, é difícil ler nas páginas de Stanley sobre os traficantes de escravos planejando com frieza o ataque-surpresa a um vilarejo para capturar seus habitantes, massacrar a quem resistir e estuprar todas as mulheres. Ao mesmo tempo, as ruas de pedra de Londres, se pudessem falar, contariam sobre tragédias igualmente terríveis sobre a ruína igualmente completa, de arrebatamentos igualmente horrorosos, como se estivéssemos na África Central. A única diferença é que a abominável devastação é encoberta como um cadáver pelas artificialidades e hipocrisias da civilização moderna.

A África e a Inglaterra mais sombrias, de acordo com Booth, “são parecidas” no que diz respeito à “monótona escuridão […], malária […] e tristeza” e aos seus “pequenos habitantes desumanizados”. Booth, com astuta retórica, admite que há limites em seu “paralelo africano”, mas pede que os leitores analisem seus interesses e preconceitos em apoio ao trabalho do imperialismo no exterior:

Uma analogia e uma sugestão podem se igualar quando se tornam cansativas pelo excesso de repetição. Mas, antes de abandoná-la, pensem por um momento sobre a proximidade do paralelo e sobre quão estranho é o fato de que tamanho interesse seja expressado por uma narrativa de miséria e heroísmo humanos em um continente distante enquanto maior miséria e heroísmo igualmente grandiosos podem ser observados às nossas portas.

“The ‘Crawlers’” [Os ‘Rastejantes’], fotografia de John Thomson, publicada em seu Street Life in London (A vida urbana em Londres, 1876-7) — Fonte.

Nesse sentido, Booth pretende unir as visões discrepantes sobre a pobreza do ponto de vista de uma ideologia imperial dominante que seus leitores, ele presume, já aceitaram como racional e digna de apoio. Sua visão para uma Inglaterra melhor está entrelaçada em um mito instigante estabelecido de um império que sustenta a capacidade — e até mesmo o dever — dos britânicos em reformar e civilizar os indivíduos “degenerados”. A mensagem é clara: há uma necessidade para o trabalho missionário em todas as capitais do próprio Império. O fervor evangélico e o desejo ardente pela reforma encontram-se então com a retórica do imperialismo.

Evidentemente, a visão de Booth sobre o colonialismo não se limitava somente à metáfora ou à retórica: o projeto colonial britânico oferecia precisamente o mecanismo pelo qual essa ideia seria realizada. Ao definir a Inglaterra como um lugar de trevas, Booth ilumina seu “plano de libertação”: um projeto que relaciona a reforma moral e religiosa a empregos vantajosos em colônias cuidadosamente construídas na própria Inglaterra e no exterior. Seu modelo interdependente pretendia oferecer “trabalho para todos” por meio de um “esquema” que “se divide em três seções e cada uma é indispensável para o sucesso integral”. O autor chamou esse esquema em três partes de “família patriarcal” e descreveu como cada uma levaria à próxima, criando um filtro que, em última instância, apontava para o mar:

O esquema, como um todo, pode ser adequadamente comparado a uma Grande Máquina alicerçada nas favelas e periferias mais pobres de nossas grandes cidades, acolhendo em seus braços os depravados e necessitados de todas as classes, recebendo igualmente ladrões, prostitutas, mendigos, bêbados e pródigos, sob a simples condição de estarem dispostos a trabalhar e se conformarem com a disciplina. Acolher os pobres marginalizados, reabilitá-los e imbuí-los com hábitos de indústria, honestidade e verdade; ensiná-los os métodos pelos quais tanto o pão que perece quanto o pão que resiste chegam à Vida Eterna. Enviá-los da cidade para o campo e aí prosseguir com o processo de regeneração para, em seguida, levá-los aos solos virgens em outras terras que os aguardam e mantê-los sob um governo forte, mas igualmente tornando-os homens e mulheres livres, construindo, com sorte, as fundações de outro império para florescer em grandes proporções no futuro. Por que não?

Detalhe mostra a imigração em “A colônia do outro lado do mar”, da ilustração de William Booth “In Darkest England and the Way Out” — Fonte.

A pergunta que encerra a passagem, “Por que não?”, revela sutilmente uma confiança, não somente nas reformas progressistas, mas também no projeto imperial. Se fosse possível aproveitar outros espaços como locais para novas oportunidades, por que não? Assim, o poder imperial britânico prova-se fundamental na oferta de uma “saída” da “Inglaterra mais sombria”.

O frontispício e o texto de In Darkest England and the Way Out, evidentemente presumem que grandes áreas do mundo são espaços em branco que os britânicos têm o direito de ocupar e usar para seus próprios interesses. Booth escreve: “Todos que se atentarem ao tema concordarão que nossas colônias na África do Sul, Canadá, Austrália Ocidental e outros lugares têm milhões de hectares de terras valiosas clamando por ocupação”. Booth cita a África do Sul como um espaço ideal para o Exército da Salvação estabelecer uma rota de emigração pois o país “atualmente apresenta grandes vantagens. Há muita terra a ser ocupada em prol de nosso propósito sem grandes dificuldades”. Sua avaliação da paisagem envolve uma análise da quantidade de terra e da facilidade de “ocupação”. Não há detalhes sobre como a terra seria tomada ou como os colonos interagiriam com os habitantes nativos. A avaliação de Booth também ignora outros poderes coloniais, como os holandeses, que seriam um obstáculo à expansão britânica na África do Sul. Ele presume que os britânicos têm o direito a exercer poder sobre todas as populações nativas e que esse direito seria mais justo que o de outras nações.

Detalhe de um mapa-múndi de 1886, de Water Crane, mostra a extensão do Império Britânico — Fonte.

Seu esquema em In Darkest England and the Way Out também pressupõe que as colônias britânicas estabelecidas oferecem uma continuidade da vida britânica. Ele enfatiza a compatibilidade da vida entre a Inglaterra e suas colônias ao descrever como as fronteiras foram derrubadas em uma era de avanços tecnológicos: “O mundo ficou menor desde que o telégrafo foi inventado. Associe-se ao encolhimento do planeta o vapor e a eletricidade e chegamos a um senso de irmandade e consciência comuns de interesses e nacionalidades por parte dos povos falantes de inglês em todo o mundo”. Nesse ponto, a tecnologia e a língua possibilitaram viagens e ajudaram na maior eficácia da comunicação entre regiões distantes. Booth afirma que é “absurdo falar das colônias como se fossem uma terra estrangeira. São partes da Inglaterra espalhadas pelo mundo, possibilitando aos britânicos o acesso às mais ricas regiões da Terra”. Algumas páginas adiante, ele descreve seu processo ideal de emigração: “como se uma pequena parte da Inglaterra fosse rebocada pelo mar para encontrar um ancoradouro seguro em um clima mais ensolarado”. Esses destinos (com diferentes climas, culturas e povos) são apresentados como pequenas Inglaterras e possibilitam que Booth defina as colônias como lugares amigáveis repletos de oportunidades. Embora outras histórias de exploração e aventura fizessem o povo britânico pensar nas colônias como espaços exóticos, Booth espera que seu público veja as colônias como lugares acolhedores e familiares — convidativos o suficiente para a sobrevivência, mas diferentes o suficiente para que alguém pudesse recomeçar sua vida.

Alegoria mostra a ajuda prestada pelo Exército da Salvação a mais de duzentos mil britânicos na imigração para as colônias, no início do século 20.

Não é surpresa que o modelo de salvação da Inglaterra imaginado por Booth nunca tenha saído da litografia colorida para a realidade, ou suas promessas ambiciosas de garantia de “trabalho para todos”. No entanto, seu livro foi incrivelmente popular, com centenas de milhares de cópias vendidas. Suas ideias foram preservadas e o Exército da Salvação seguiu facilitando a emigração voluntária de milhares de pessoas. Por muitas décadas após a publicação, o Exército da Salvação, de acordo com seu site, “foi a maior sociedade de migração voluntária do Reino Unido, ajudando cerca de 250 mil pessoas a emigrarem das Ilhas Britânicas para outros domínios do Império”. Por muitos anos o Exército da Salvação teve um departamento dedicado à emigração e, de fato, estabeleceram colônias agrícolas: três nos Estados Unidos (no Colorado, Ohio e Califórnia) por meio da filial americana da organização. Apesar de a maioria do material com detalhes sobre a missão global do Exército da Salvação ter desaparecido quando sua sede foi destruída nos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, alguns artefatos sobreviventes indicam como o espírito do esquema colonial de Booth foi seguido. Esses artefatos incluem cópias do The Social Gazette, um periódico semanal que, por três anos no início do Século 20, trouxe uma coluna chamada “Nosso gabinete de conselho emigratório”, que aconselhava aqueles que pretendiam emigrar e publicava anuários do Exército da Salvação com detalhes do trabalho do Departamento de Emigração da organização de 1906 a 1981.

A concepção de que a classe pobre dos centros urbanos poderia encontrar oportunidade nas colônias britânicas não era uma noção sustentada somente pelas organizações religiosas, como o Exército da Salvação. Muitos reformadores e políticos seculares também acreditavam que a emigração seria uma maneira viável de atenuar a pobreza, possibilitada pelo poder imperial britânico ao privilegiar os colonos brancos sobre os residentes nativos. De fato, conforme a ideologia imperial britânica abraçava a noção da missão civilizatória, enfatizando a colonização como um processo de reforma e redenção, os missionários cristãos acabavam associados a um projeto imperial secular em termos retóricos. Eles compartilhavam o mesmo léxico, mesmo que nem sempre compartilhassem a mesma fé ou a mesma preocupação sobre a alma do indivíduo colonizado.

É professora assistente de inglês na Penn State Harrisburg, onde leciona literatura inglesa, teoria crítica e redação. Pesquisa literatura e cultura vitorianas e é coautora da publicação A Research Guide to Gothic Literature in English (Rowman and Littlefield). Suas publicações recentes incluem ensaios na Nineteenth-Century Prose, e em Victorian Medicine and Popular Culture (Routledge).
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