Foto em preto e branco de Neil Gaiman.

Neil Gaiman, premiado autor de quadrinhos como Sandman e novelas como American Gods, The Graveyard Book, Coraline e outros.

A Fantasia é um gênero literário que tende a polarizar as pessoas. A ideia de que os leitores “sérios” preferem o realismo e que a fantasia agrada principalmente às crianças ou aos que têm a leitura como forma de escapismo é bastante difundida. Também é falado que a  fantasia é inferior à escrita realista — o que explicaria sua associação às crianças e à imaginação.

Em 2013, a lista dos livros infantis mais lidos — no Reino Unido — estava repleta de romances da literatura fantástica.

Mas por quê? O que a fantasia oferece aos jovens leitores?

A disputa entre as obras realistas e fantásticas tem relação com o desenvolvimento de literaturas distintas para adultos e crianças a partir dos séculos 18 e 19: o romance sério e realista se dirigia para leitores homens, enquanto romances e fantasias eram relegados às mulheres e crianças.

(É interessante como essa visão de gênero na fantasia mudou gradativamente com o tempo, pois a fantasia hoje é quase sempre associada a jovens do sexo masculino — embora sua idade seja mais relevante do que o sexo.)

O importante a destacar é que a literatura fantástica ficou conhecida cultura popular. Daí sua ligação com a qualidade inferior.

A ideia me foi incutida desde a infância. Minha mãe bibliófila, sempre foi convencida de que fantasia era “lixo”. (Ela sempre tentava persuadir meus dois irmãos a se livrarem de seus livros de David Eddings para lerem algo “respeitável”.)

Eu me defrontei com uma hostilidade similar à fantasia quando morei na Finlândia, onde entrei para um clube de leitura de expatriados que falavam inglês. Lá fui advertida no primeiro encontro que o clube não lia livros genéricos — o que em resumo significava que realismo estava na moda, mas todo o resto, incluindo literatura fantástica, não.

O curioso sobre essa marginalização é que toda escrita é “fantástica” em alguma medida. Mesmo o realismo é uma representação da realidade construída e imaginada, e não a realidade per se. Fantasia é apenas um distanciamento mais exagerado da realidade.

Quando se trata de conteúdo infantil, as discussões sobre quais livros seriam “melhores” para crianças giram em torno do debate fantasia versus realismo, o que levou o Professor John Stephens a escrever que:

Um dos lados mais curiosos da crítica literária infantil é o impulso de polarizar fantasia e realismo como gêneros rivais, e afirmar que crianças preferem um ou outro, ou ‘avançam’ de fantasia ao realismo (ou vice-versa).

Jogos Vorazes, de Suzanne Collins.

Uma rápida pesquisa sobre as tendências das grandes publicações infantis durante a primeira década do novo milênio confirmou que a fantasia continua popular no cenário de livros infantis. Das 450 milhões de cópias de Harry Potter vendidas durante esse período ao fenômeno young adult da série Crepúsculo (Twilight) de Stephenie Meyer, segundo parece, as crianças estão tão interessadas em fantasia como sempre estiveram — ao invés de “avançarem” para além da fantasia, a influência da fantasia distópica dentro do mercado young adult com Jogos Vorazes (The Hunger Games) de Suzanne Collins liderando esse cenário, sugere justamente o oposto.

Uma das vantagens mais óbvias da fantasia é o fato dos leitores experimentarem diferentes visões de mundo. Ela apresenta uma situação hipotética e convida os leitores a fazerem conexões entre a cena ficcional e suas próprias realidades sociais.

Segundo Stephens, a literatura fantástica atua através da metáfora — ou seja, o desconhecido é usado para representar ou falar sobre o que é conhecido. Metáforas são obviamente menos precisas que outras formas de linguagem (estão sujeitas a processos interpretativos mais complexos) e talvez isso seja uma vantagem significante da fantasia sobre o realismo.

O uso de metáforas torna a fantasia mais “aberta” a interpretações e significados diferentes. Isso permite que a fantasia explore questões sociais complexas de forma mais sutil que o realismo, pois acontece em um mundo distanciado da realidade social (e que também pode ser mediada pelo humor).

Por exemplo, a fantasia futurística Feed, romance de 2002 de M.T. Anderson, situa-se em um futuro onde todos têm seus cérebros conectados a uma rede de internet, o que ocasiona constantes bombardeios de anúncios. O romance é uma sátira mordaz ao consumidor e à cultura digital.

Um de seus temas principais é a perda da linguagem que ocorre devido à velocidade e facilidade da comunicação digital — representada de forma bastante cômica no fim da distinção entre fala adolescente e adulta. No começo do romance, o adolescente Titus e seus amigos vão parar em um hospital depois de terem seus sistemas hackeados, causando essa reação inarticulada de seu pai:

“Deu… Cara”, ele disse. “Cara, deu ruim total” (2003:67)

Cory Doctorow dando uma palestra.

Cory Doctorow é um autor inovador que publica vários de seus trabalhos diretamente sob licença Creative Commons. É um defensor no fair use, além de sua atuação ímpar em iniciativas digitais.

Cory Doctorow, especialista em ficção científica, utiliza uma abordagem ainda mais direta à ideia de que a fantasia permite aos leitores jogar com essas situações hipotéticas. Seu primeiro romance young adult, Little Brother (2008), ilustra sugestivamente múltiplos casos noticiados na mídia internacional que envolveram pessoas aprisionadas em locais como o Campo de Detenção da Baía de Guatánamo, após os ataques terroristas de 2001.

Little Brother usa esse contexto histórico, mas criativamente subverte os acontecimentos ao colocar uma criança inocente, que também é uma cidadã norte-americana legítima, na mesma situação dos “não-cidadãos” detidos em Guatánamo. Ao contar a história pela perspectiva dessa criança, Doctorow expõe nitidamente a brutalidade e a injustiça das práticas desse tipo de aprisionamento, além de constituir uma causa convincente para o argumento de que uma vez que esses poderes foram exercidos sobre os não-cidadãos pode não demorar até serem exercidos sobre os próprios cidadãos.

Little Brother é, portanto, extremamente político — um exemplo eficaz de como a literatura fantástica pode criticar cenários reais de forma direta. O que é mais emblemático na obra de Doctorow é que ela se compreende mais ou menos como o realismo: os elementos “fantásticos” do romance são tecnológicos, embora as técnicas de vigilâncias altamente tecnológicas da ficção sejam apenas um ligeiro exagero do que a tecnologia atual permite.

Tanto Anderson quanto Doctorow trabalham dentro do gênero de ficção científica futurística, que por acaso é excepcionalmente popular entre os adolescentes atuais — talvez pelo fato de oferecer aos leitores uma maneira de compreender nossos tempos. Mas fantasia é uma categoria literária extremamente vasta que abrange uma ampla variedade de subgêneros.

Um dos melhores escritores de literatura fantástica infantil no mundo hoje contraria a tendência atual a narrativas futurísticas ao buscar inspiração no passado.

Neil Gaiman — que é casado com a musicista Amanda Palmer e amigo de Tori Amos (o que talvez faça dele o escritor infantil mais bacana do mundo) — produziu um punhado de romances de fantasia infantis influenciados pela Era Vitoriana, incluindo The Graveyard Book (2008).

Capa aberta da primeira edição de O livro da selva do Instituto Mojo para o programa Domínio ao Público

Esse romance excepcional conta a história de Bod. Seus pais foram assassinados quando ele era bebê e foi adotado pelos fantasmas de um cemitério próximo. Gaiman adota vários elementos de O livro da selva (The Jungle Book), de Rudyard Kipling (em termos de estrutura e temas da história), mas moderniza o conto para leitores contemporâneos — tanto que as noções do bem e do mal são necessariamente mais complexas, e a transição final de Bod da infância à fase adulta é muito mais alegre que a de Mowgli:

Mas, até isso acontecer, haveria Vida; e Bod se inseria nela com olhos e coração bem abertos.

Fantasia é um gênero que tem muito a oferecer aos jovens leitores. Uma das maiores razões para oferecê-la ao público infantil é que o gênero critica a realidade social através de indiretas (metáfora, alegoria, parábola) e pode, portanto, lidar com questões morais complexas de forma mais lúdica e exagerada. Fantasia também incita jovens leitores a brincar de ver o mundo de diferentes maneiras e, consequentemente, os ensina a elaborar significados por meio de conexões entre coisas ou conceitos aparentemente desconexos.

O outro bônus é que, diferente do que fazem com as verduras, as crianças podem ser mais facilmente convencidas a ler fantasia sem que os adultos que convivem com elas precisem recorrer ao suborno.

As crianças já desvendaram a mágica desses livros por si mesmas.

Victoria Flanagan é docente sênior em inglês na Macquarie University.
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