Scriptorium monástico.

 

Invenções inovadoras

A revolução digital que experimentamos hoje é comparável a outros dois eventos que mudaram radicalmente a humanidade: a invenção da escrita há 6 mil anos, nas inscrições em argila na Mesopotâmia, e a invenção da prensa de tipos móveis por Gutenberg no século 15.

Essas inovações foram recebidas com desconfiança por seus contemporâneos. Platão considerou a escrita uma ameaça à memória humana e os monges copistas agonizavam sobre o fim de seus estilos de vida. Em 1492, por exemplo, o abade Johannes Trithemius escreveu De laude scriptorum manualium [Louvor aos escribas], o qual imprimiria em 1494 para melhor efeito. Em ambos os casos, os céticos contemporâneos tinham razão.

A capacidade de memória não está nem perto do que era antes do advento da escrita e a invenção da imprensa significou o fim do scriptorium monástico.

Não é de se estranhar que a revolução da tela também tenha seus detratores e, mais uma vez, as críticas muitas vezes têm fundamentos. Na rede de pesquisa E-READ, da qual fazemos parte, tentamos entender a função da leitura na era digital, especialmente quando pesquisas apontam os impactos negativos das telas.

 

Vício em telas

O uso de smartphones entre adolescentes já foi comparado ao vício em drogas. Pesquisas mundiais mostram que uma geração inteira está constantemente online enquanto cresce, checando seus smartphones até 75 vezes por dia. De acordo com um estudo italiano, os considerados “nativos digitais” são menos autônomos e menos felizes do que seus predecessores. Eles experimentam ansiedades sociais como o fomo (acrônimo para a expressão inglesa fear of missing out ou o medo de perder o que está acontecendo) e o vamping, que se refere a trocas de mensagens durante a madrugada.

Não devemos culpar os dispositivos como meio, mas sua natureza online estimula a conexão incessante, aumenta a tendência à distração e fragmenta os hábitos de leitura. A primeira vítima é a leitura profunda e imersiva, seja literária ou de quaisquer outros textos narrativos ou argumentativos, incluindo os acadêmicos.

Será possível contermos esses efeitos colaterais desagradáveis da revolução digital? A boa notícia é que sim. Parte da solução está em mudar nossos hábitos, lendo ficção e aproveitando a solidão.

Tábua V da Epopeia de Gilgamesh.

 

Experimente a solidão

Thuy-vy Nguyen e seus colegas da universidade de Rochester constataram que a solidão pode levar ao relaxamento e à redução do estresse. Os pesquisadores definem solidão como “estar sozinho por um período de tempo sem acesso a dispositivos eletrônicos, estímulos externos ou atividades, e sem interagir com pessoas”. Em todos os seus quatro estudos, o período de solidão durou 15 minutos e os indivíduos foram instruídos a sentarem-se isolados, sem fazer nada ou realizando alguma atividade individual, como se concentrar em pensamentos positivos ou neutros.

Uma parte do experimento consistia em uma curta leitura recreativa de um texto chamado “Travessias glamurosas: como as linhas aéreas Pan-Am dominaram as viagens internacionais nos anos 1930”. Os resultados foram similares àqueles das atividades praticadas em solidão: as pessoas ficavam mais relaxadas e calmas.

A leitura realizada em “solidão produtiva” aumentou a resiliência e a impermeabilidade dos leitores a expectativas e pressões sociais, especialmente aquelas encontradas nas mídias sociais. Isso obviamente pode levar as pessoas a preferirem a leitura em papel, simplesmente por acharem mais confortáveis do que a leitura em tela. Mas, se a leitura faz bem, ler ficção é ainda melhor.

 

Encontre o bem dentro de você

Recentemente, pesquisadores apresentaram evidências empíricas para a hipótese de que consumir literatura teria efeitos positivos na cognição social, habilidades sociais e empatia. O psicólogo Raymond Mar e seus colegas verificaram que, quanto mais ficção é lida – de qualquer tipo – melhor a pontuação em testes de medição de tipos de empatia.

Em outro experimento, o professor de psicologia Dan Johnson verificou que aqueles que leram o trecho de um romance sobre as dificuldades de uma mulher árabe-muçulmana apresentaram aumento significativo da empatia por árabes-muçulmanos e uma motivação intrínseca para a redução de preconceito.

Leitores assim podem reequilibrar a nociva tendência ao ódio e à indiferença que é comum na Internet. Em experimentos realizados pelo Instituto de Estudos Avançados em Paris, conseguimos mostrar como os leitores de literatura apresentam compaixão por personagens moralmente corretos em detrimento a personagens sem valores morais.

No Max Planck Institute para Estética Empírica em Frankfurt, coordenamos um experimento onde manipulamos um texto literário. Em uma das versões, o protagonista era um médico voluntário na África; na outra, um nazista que fugiu para a África. Entre as duas versões alteramos apenas quatro frases a respeito da natureza moral do protagonista e preservamos o restante do texto em sua forma e conteúdo. Cento e vinte indivíduos alemães foram selecionados para a leitura de um dos textos: do protagonista moralmente positivo ou do moralmente negativo. Depois deveriam avaliar os valores estéticos e morais do texto respondendo a perguntas relacionadas à empatia e simpatia. Os resultados ainda não foram publicados, mas os índices de empatia foram claramente afetados pela natureza moral do protagonista.

Portanto, a literatura pode ser considerada um laboratório moral que estimula traços sociais benéficos.

Mas o que fazer para que os jovens — os nativos digitais — leiam sem se desviarem para as várias redes sociais e outras ferramentas de comunicação? Aqui vão algumas dicas:

 

Ensine as pessoas a ler (de verdade)

Para garantir que a literatura retome ou passe a ter um papel central nas aspirações de leitura, a didática da literatura na era digital deve ser drasticamente revista. Enquanto abordagens orientadas para o texto e o autor são ainda dominantes nas escolas europeias, novos estudos mostram a necessidade de se implementar “abordagens experimentais”, onde o foco deve estar no destinatário do texto — por exemplo, estudantes. Pesquisas sugerem que levar em conta a preferência dos estudantes em vez de impor textos, auxiliando-os a escolher o livro certo para seu momento específico de vida estimula um engajamento muito maior.

Assim a ficção significará muito mais para o leitor adolescente e aumentará seu ganho em suas relações sociais e desenvolvimento pessoal.

Pode ser que o papel também seja um aliado valoroso. Pesquisas apontam que suas propriedades materiais são melhores para nossa memória. Rakefet Ackermann, também membro da rede E-READ, explica que, apesar dos enormes avanços tecnológicos, os alunos ainda preferem folhas impressas às telas de computadores. Revelou-se que apesar da leitura em tela não comprometer o aprendizado, surpreendentemente, é nossa capacidade metacognitiva que nos trai. Ao ler um artigo numa tela a pessoa se sente menos preparada para avaliar o quanto entendeu ou — no caso de um estudo — o quanto assimilou.

Nossos experimentos mostram sobre o apelo do papel é que leitores de livros se envolvem mais profundamente com o texto enquanto usuários de dispositivos digitais tendem a ler de maneira mais superficial.

Portanto, queremos contrapor nitidamente a leitura digital e a leitura em papel? Somos contra a leitura em telas? Não. Temos que adaptar nossas ferramentas às nossas necessidades e desenvolvê-las deliberadamente para tornar a leitura um elemento de nossos hábitos sociais e culturais. Quanto mais entendermos sobre a leitura digital, mais poderemos salvar o precioso passado que herdamos.

/

Massimo Salgaro - RFIEA Fellows 2017-2018, IEA Paris, Researcher in Literary theory, University of Verona Adriaan van der Weel - Researcher Book and Digital media studies, Leiden University
Link Original