O clássico infantil O jardim secreto já tem quase 120 anos, mas continua mais atual do que nunca. Neste ano, uma nova versão chega ao cinema, mas a versão de 1993 ainda continua viva na cabeça de todos. Gretchen Holbrook Gerzina, autora de Frances Hodgson Burnett: The Unexpected Life of the Author of The Secret Garden (ou A surpreendente vida da autora de O jardim secreto), analisa a vida de Burnett e como a tragédia pessoal baseou a criação de sua obra mais famosa.

“A respeito de O jardim secreto,” escreveu Frances Hodgson Burnett a seu editor inglês em outubro de 1910, “você diz que não é um romance, mas uma história para crianças. Porém, o trabalho inicia sua vida como uma importante série em uma revista para adultos….É uma história inocente de suspense que adultos escutam fascinados para meu grande prazer.” A “história de suspense” fez sua primeira aparição naquele outono na The American Magazine, mas surgiu realmente como livro um ano depois.

Ao celebrarmos o centenário da obra, é fascinante olhar para trás e ver o início modesto deste livro que é repetidamente citado como um dos mais influentes e amados da literatura infantil de todos os tempos. No entanto, Burnett ficaria admirada em saber que é reconhecida primeiramente como uma escritora para crianças, quando a maioria de seus 53 romances e treze peças teatrais foram escritas para adultos.

Quando Burnett começou a escrever a história de uma menina órfã enviada da Índia para os pântanos de Yorkshire, onde ajudaria a si mesma e a outros na busca pela recuperação e redenção ao cuidarem de um jardim esquecido, ela escrevia de sua nova casa em Long Island e não do norte da Inglaterra. Nascida em 1849 e criada em Manchester, Inglaterra, por uma família de classe média, mudou-se ainda adolescente para o Tennessee quando sua mãe viúva decidiu que deveriam emigrar ao final da Guerra Civil. Apesar de serem pobres, Burnett estava feliz por trocar a poeira e a fumaça de uma cidade industrial pelas deslumbrantes paisagens do leste do Tennessee. Na América, começou cedo a publicar suas histórias românticas em revistas populares, eventualmente se tornando mais famosa ao publicar seu sexto romance, O pequeno lorde (Little Lord Fautleroy), em 1886. Desde o primeiro, seus trabalhos nunca foram rejeitados por editores, mas com O pequeno lorde ela se tornou e manteve-se a mais bem paga escritora de sua época, produzindo livros e histórias regularmente. Apesar do enorme sucesso de O pequeno lorde, e posteriormente de A princesinha (Little Princess), a maioria de seus romances e peças não eram para uma audiência juvenil.

Nessa época, casada e mãe de dois filhos, vivendo em Washington, DC, ela capitalizou sobre seu passado inglês na maioria de suas obras. Durante todo o tempo, a Inglaterra foi parte ativa e importante de sua vida. Ela cruzou o Atlântico nada menos do que 33 vezes, algumas delas vivendo em outros países por um ano ou dois. Teve residências em Washington e, posteriormente, em New England, orgulhosa por seus filhos serem típicos americanos, mesmo quando seu casamento terminou ou quando passava por períodos de ausência surpreendentemente longos.

Dois eventos importantes contribuíram para a criação de O jardim secreto, escrito já perto do fim de sua vida. O primeiro foi a morte de seu filho Lionel aos 16 anos, após ficar gravemente doente em Washington enquanto ela morava fora. Seu marido, Dr. Swan Burnett, escreveu cartas urgentes a ela sobre a saúde delicada do filho, mas somente quando foi diagnosticado com tuberculose ela se apressou a voltar e levar Lionel num circuito desesperado por sanatórios na Europa. Quando morreu em seus braços no final de 1890, ficou completamente devastada. Por anos dedicou-se a manter uma instituição 1 de caridade para meninos pobres em Londres, e a mimar seu outro filho, Vivian.

Vivian Burnett vestido como o pequeno lorde.

Vivian Burnett vestido como o pequeno lorde.

A segunda perda foi a de sua amada casa Maytham Hall, em Kent, sul da Inglaterra, a qual arrendara por dez anos. Em 1908 o proprietário decidiu vender a grande casa e Burnett foi obrigada a deixar o lugar onde vivia os meses mais felizes de cada ano depois de se separar do abusivo segundo marido. Lá, ela cultivou grandes jardins, deu festas, e domou um pintarroxo enquanto escrevia em uma mesa sob um caramanchão. Tanto o pássaro quanto o jardim foram incluídos em O jardim secreto.

Com a perda de Maythan Hall, Burnett retornou à América onde construiu casas germinadas para ela, sua irmã Edith, e para Vivian e sua família, em Plandome, Long Island. Regressava por longos períodos à Inglaterra e passava os invernos com a irmã nas Bermudas. Tanto lá quanto em Plandome, ela se dedicava à jardinagem, com a ajuda de jardineiros, projetando extensos jardins que produziam flores dignas de prêmios. Rosas eram suas favoritas, da mesma forma que para Lilias Craven em O jardim secreto.

Todo ano Burnett publicava um livro a tempo de ser vendido na época do Natal.Em 1910, estava intrigada com a ideia de uma pequena menina pálida e desagradável, seu primo deficiente, e um menino forte que amava a natureza com sua mãe benevolente. Sempre entusiasmada com sua escrita — frequentemente declarava que seus personagens “apareciam” sem serem criados — era possível vê-la sentada nos degraus lendo seus próprios livros com evidente prazer. Ela escreveu ao seu editor “eu adorei. Há um jardim comprido e deserto. Sua porta foi coberta pela hera e a chave enterrada há dez anos. Há também um fauno que enfeitiça e doma criaturas selvagens, e uma mulher numa cabana no pântano que é uma matrona com doze filhos — uma coisa materna, acalentadora, sadia, sábia e simples.”

Burnett adorava a mistura dos mundos gótico e natural e a capacidade das crianças em entender e apreciá-los sem dificuldades. Com sua nova história, foi capaz, intencionalmente ou não, de se recuperar de suas duas grandes perdas. Diferentemente de Lionel, Colin Craven tem a saúde restaurada ao final do livro. Ao contrário de Maythan Hall, os jardins de Misselthwaite Manor continuaram a florescer. Quando Burnett morreu em 1924 seus amigos construíram um memorial para ela no Central Park: uma fonte cercada por jardins e bancos para leitura. A escolha deles pelo O jardim secreto como inspiração para a escultura da fonte surpreendeu o público. Naquela época era seu livro menos conhecido, mas eles sabiam quais coisas a autora mais prezava.

Apesar das boas vendas no início, O jardim secreto quase caiu no esquecimento por décadas. Os críticos o ignoravam ou o rebaixavam, mesmo em uma época em que livros infantis começavam a receber cada vez mais atenção da academia. Foram as crianças e os livreiros que o salvaram, indicando e emprestando o livro para os amigos, criando um lugar especial em seus corações para a história. Na década de 1960 começou a ressurgir e, quando o livro caiu em Domínio Público, em 1986, dezenas de ilustradores e editores se apressaram em republicá-lo.

Mais de cem anos depois, O jardim secreto nunca foi tão popular e influente. Traduzido para praticamente todas as línguas, as livrarias o mantêm nas prateleiras em várias versões e edições. Crianças ao redor do mundo continuam amando a história dos garotos que, com a ajuda da natureza e do pensamento positivo, trazem um mundo de volta à vida. Como disse Burnett a um amigo “sei bem que este é um dos meus melhores achados.” Crianças e adultos, mais de um século depois, concordam.

Veja o trailer original do filme O jardim secreto (1993).

Veja também o trailer da nova versão steampunk da obra, com lançamento em 2018.

Notas

1. Drury Lane Boys’ Club era uma entidade filantrópica para garotos pobres em um dos bairros mais humildes de Londres. Segundo o jornal estadunidense The New York Times (1892), era “um pequeno quarto miserável”. A princípio Burnett financiou apenas uma sala de leitura e uma biblioteca, mas depois acabou comprando uma casa onde a entidade passou a funcionar permanentemente.