Como autora e acadêmica, levo a literatura infantil a sério — é minha raison d’être profissional. Não significa que eu ache que deva ser canonizada, mas não deve ser descartada como sendo superficial. Os autores de livros infantis são excelentes escritores. Além do mais, nossos primeiros encontros com o mundo da escrita colorem tudo o que vem a partir daí, por isso qualquer um que leve a literatura “adulta”1 a sério deveria fazer o mesmo com a literatura infantojuvenil.

Detalhe da capa A Maldição da Coruja (The Owl Service, de Alan Garner)

Não sou a primeira a defender essa posição. Uma vez a cada geração, ao que parece, um cri de coeur se faz ouvir quando um representante do universo da literatura infantil dirige-se ao establishment literário com a autoridade de quem traz uma revelação — e o faz reconsiderar o lugar dos livros infantis.

Em 1968, o Times Literary Supplement convidou Alan Garner, autor do livro A maldição da coruja, para escrever sobre sua abordagem. Garner argumentou que as crianças são os leitores mais gratificantes e exigentes, ressaltando sobre seu livro seguinte que: “Se for bom o bastante, será provavelmente para crianças”.

Do mesmo modo, em 1996, Philip Pullman iniciou seu discurso de agradecimento por ter recebido a Medalha Carnegie declarando: “Existem alguns temas, alguns assuntos que são vastos demais para a ficção adulta. Eles só podem ser tratados adequadamente num livro infantil.” Como Garner, Pullman havia escrito livros ricos com referências literárias e escopo intelectual. Ambos eram autoconfiantes, haviam estudado em Oxford e não poderiam ser facilmente tratados com condescendência. Os dois estavam num campo da literatura dominado por mulheres. As pessoas deram atenção.

J.K. Rowling, autora dos livros de Harry Potter.

Por algum tempo, por causa dos próprios romances de Pullman e, mais tarde, os de J.K. Rowling, os livros infantojuvenis estiveram por toda parte. Alguns sugeriam que a diferença entre as literaturas estava desaparecendo: títulos eram lançados em edições infantis e adultas — idênticas, a não ser pela capa (e pelo preço). Para a maioria dos autores infantis posicionados em midlist, no entanto, as coisas logo retrocederam ao status anterior. O espaço nas críticas literárias dos jornais de grande circulação, generoso por um breve tempo, esgotou-se, e logo voltou aos níveis pré-Harry Potter.

 

Esnobismo de gênero

Quando a ex-detentora do Children’s Laureate, Julia Donaldson, pediu que os livros infantis fossem levados a sério em 2013, seu apelo tornou-se parte de um ciclo identificável no mundo da literatura infantil. Primeiro aparece a negligência, tingida de menosprezo, a seguir um choque sob a forma de um evento literário ou defesa articulada, e depois uma vagarosa recaída.

Por que o mundo literário passa por esses espasmos? Observemos algumas breves imagens sem relação entre si, e vejamos se é possível constituir um retrato falado:

Capa do livro de Penelope Lively

Em 1977, Penelope Lively, na época uma bem-sucedida romancista da literatura infantil, publica sua primeira obra para adultos, The Road to Lichfield, e se torna amplamente aclama pela crítica por seu “primeiro romance”.

No ano 2000, Anthony Holden declara que se o Prêmio Whitbread for concedido a J.K. Rowling isso significará que a nação se recusa a crescer. No final, o prêmio vai para uma história de aventura sobre dragões, monstros e tesouros enterrados — Beowulf, na tradução de Seamus Heaney.

Nos dias atuais, as pessoas que publicam avaliações na Amazon escolhem “elogiar” seu livro infantil favorito declarando que ele é “bom demais para ser infantil”.

Tais ocorrências não são apenas uma questão de esnobismo em relação à “ficção popular”. Um homem que é visto lendo um romance de suspense pode ser alvo de brincadeiras, mas se estiver lendo um chicklit (livros para meninas que abordam questões modernas), podem questionar também a sua masculinidade. Da mesma maneira, adultos que leem literatura infantil acabam sendo estigmatizados pela infantilidade. Essa decisão de publicar certos livros com capas para adultos e para crianças mostra de fato barreiras sendo derrubadas? O fato de algumas pessoas estarem dispostas a pagar um pouco mais para evitar serem vistas lendo um livro infantil sugere o contrário.

Ideais de infância

Essencialmente, o desdém pela literatura infantil tem menos a ver com a qualidade das obras do que com os sentimentos contraditórios que os adultos têm acerca das crianças e da infância. Eles se distribuem por dois grupos a, sendo que o primeiro pode ser assim resumido: “Quanto mais adulto, melhor”. Como São Paulo explicou: “Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Agora que sou adulto, parei de agir como criança. Pois atualmente vemos contornos indefinidos por meio de um espelho de metal, mas então será face a face.” (1Cor. 13:11, 12).

A visão do adulto é a visão real; a da criança, apenas uma aproximação. Aplicado à literatura, isso leva à convicção de que os livros infantis são literatura com rodinhas — e que aqueles que se parecem mais com livros para adultos são os que têm mais valor.

No entanto, essa atitude coexiste também com o seu oposto: considerem a visão de Wordsworth de crianças deixando atrás de si nuvens de glória e minguando ao entrar na vida adulta. Contra São Paulo, podemos evocar Jesus de Nazaré: “Deixai vir a mim os pequeninos. Não os impeçais, pois deles é o Reino de Deus” (Mc. 10:14).

Acredita-se com frequência que a idealização da infância alcançou seu ápice nos livros infantis do início do Século 20. Mas essa visão, na verdade, persiste — ela permanece viva no dever que os adultos sentem de proteger as crianças do conhecimento adulto, especialmente quando ele as espreita entre as páginas de um livro. Regularmente, editores e críticos censuram os autores quanto a certas palavras e tópicos que ultrapassam os limites. A inocência das crianças deve ser mantida.

A despeito da oposição a essas tradições, ambas continuam a prosperar — pois se comunicam poderosamente com fantasias adultas. Crianças, e adultos a elas ligados, são constantemente arrastadas em suas contracorrentes. Se os escritores criam um espaço seguro ao abrigo do mundo exterior, são olhados com condescendência por sua infantilização. Porém, se escolhem não ser acolhedores, estão por esse motivo corrompendo a inocente juventude que deveria ser protegida.

A batalha para que a literatura infantil seja levada a sério nunca será concluída, pois muitos adultos estão determinados a mantê-la como é. Isso tiraria deles as verdades absolutas que apertam entre as mãos como se fossem seus brinquedos favoritos: “Eu sou sério, você é bobo, eu sou adulto, você é criança.” Não digo que devamos aceitar tais opiniões, mas deveríamos reconhecer que elas não desaparecerão. Levar a literatura infantil a sério faz parte de levar as crianças a sério, e isso é trabalho para uma vida inteira.

Notas:

1 – Neste trecho, a autora alude à quinta estrofe do poema Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood, de William Wordsworth (1770-1850).