“Para que um livro seja bom, deve-se amar a ideia mais simples e fundamental que o constitui. Sendo assim, amei a ideia sobre família em Anna Karenina”, disse Liev Tolstói a Sofia, sua esposa, em 2 de março de 1877. Sofia anotou essas palavras em seu diário no dia 3 de março.

Tal “ideia” permeia toda a trama de Anna Karenina, publicado entre 1874 e 1876. O livro, que é por vezes considerado o melhor romance de todos os tempos, começa com uma das frases mais famosas da literatura:

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

Anna Kariênina (primeira edição russa).

O primeiro dos dois enredos principais é relacionado à irresistível Anna, alguém que não conhecera família além da tia que a criou e se casado com Alexei Karenin, um homem bem mais velho.

O segundo enredo retrata Konstantin Levin, proprietário de terras (personagem que representa o próprio autor, também latifundiário), que ama Kitty Shcherbatsky, a filha mais nova de um casal extremamente devotado aos filhos e um ao outro, a perde em determinado momento do livro, mas acaba se casando com ela.

Os dois enredos estão ligados por Stiva Oblonsky, mulherengo cativante irmão de Anna, melhor amigo de Konstantin e cunhado de Kitty. Anna viaja de São Petersburgo à Moscou para tentar ajudar Stiva e Dolly (irmã mais velha de Kitty) a lidar com uma turbulência no casamento.

Na estação, Anna conhece Alexei Vronsky, um oficial do exército que aguarda a chegada da mãe, que viajou com ela no trem.  Anna sente-se instantaneamente atraída pelo oficial, que corresponde o sentimento. A narrativa é envolvente e acompanha três casais até finalmente resultar em um casamento feliz (Levin e Kitty), um casamento entre duas pessoas que apenas se suportam (Stiva e Dolly), e o relacionamento infame entre Anna e Vronsky que termina com o suicídio da personagem que dá nome ao livro.


Tolstói, caçula de quatro irmãos, estava destinado a ser escritor, mas com a herança que havia recebido, tornou-se também proprietário de terras. Ele se opunha ao amor romântico com severidade e tinha conflitos em relação ao sexo. Só depois de muita procrastinação, com a idade de 34 anos, ele se casaria com Sofia Behrs, de 18 anos, e a veria criando 8 filhos — embora ela tenha tido 16 gestações.

A novela The Kreuzer Sonata (A Sonata de Kreutzer), de 1889, é pouco mais do que uma diatribe contra sexo, amor e casamento. Suas opiniões pessoais, por vezes torturantes, fornecem o contexto unificador de Anna Karenina.

O livro como um todo

No entanto, “família” está longe de ser o tema central do romance. Tanto o escritor quanto sua obra são impressionantes pela preocupação com questões significativas que continuam afetando a humanidade: nacionalismo (tema que ganha foco em War and Peace ou Guerra e Paz), espiritualidade, pacifismo, fraternidade, agricultura e modernização (leia-se: tecnologia).

A preocupação com a espiritualidade, que Tolstói teve durante toda sua vida, está em Anna Karenina na luta de Levin contra as exigências da igreja quanto a confissão antes do casamento. Levin, assim como Tolstói, opõe-se à Igreja Ortodoxa Russa, tanto em princípios (a hipocrisia, a riqueza, o autoritarismo, o nacionalismo), quanto na prática.

Pintura de Nikolai Ge, ‘Portrait of Leo Tolstoy’ (c. 1870)

A oposição do autor à industrialização também é perceptível na narrativa. O fato de que Anna encontra seu amante, Vronsky, em uma plataforma de uma estação ferroviária e, por fim, morre nos trilhos de um trem, representa essa oposição.

Esses temas, com os quais Tolstói lutava diariamente, foram explorados pelo autor em todos os seus escritos, e seus efeitos são incorporados em personagens que parecemos conhecer intimamente — o suficiente para amá-los ou odiá-los, certamente.

A sensação do leitor — de estar completamente imerso na história — deve-se ao profundo entendimento de Tolstói sobre a natureza humana e sua capacidade de nos atrair para qualquer emoção, dentro de uma infinidade delas. Ele admitiu que quando escrevia um personagem, se sentia em sua pele, por mais antiético que lhe parecesse. O resultado para quem lê é que o autor parece ter realmente vivido cada um dos desejos, aspirações e falhas dos personagens antes de colocá-los no papel.

Um moralista dividido

Contudo, talvez por ser um aspecto genuíno e essencial na visão de mundo de Tolstói, o julgamento moral está sempre presente em seus escritos. Mesmo não sendo claro, esse julgamento está implícito em causas e efeitos inevitáveis nas ações humanas.

No caso de Anna, a paixão por Vronsky resulta em uma ligação sexual que leva não só ao colapso de seu casamento, mas também à separação do filho e a um isolamento quase completo da sociedade. Vronsky tenta, sem sucesso, compensar as perdas de Anna sendo tudo para ela, que passa da dependência emocional para o ciúme infundado, e deste para o desespero final e autodestrutivo.

No início, o leitor sente, junto de Anna, que o que ela faz é maravilhoso e romântico, mas depois isso se torna nocivo e, no fim, desastroso. Isto é Tolstói em seus dois disfarces: o escritor empático e o moralista, determinado a mostrar que os valores familiares devem triunfar sobre a gratificação pessoal.

Uma narrativa atemporal

Anna Karenina deu origem a quatro balés, seis peças de teatro, dez óperas e dezesseis filmes. Dentre os filmes de língua inglesa, há uma versão em preto e branco, de 1935, estrelado por Greta Garbo — filme muito apreciado, apesar da incompatibilidade entre a languidez da atriz e vivacidade contida da personagem, muito enfatizada por Tolstói.

Mais recentemente, em 2012, um filme britânico estrelando Keira Knightley foi ridicularizado pela crítica russa, principalmente por causa do desempenho da atriz. Houve sete adaptações para a televisão, incluindo duas da BBC. Na Austrália, o romance foi adaptado em 2015 para uma versão televisiva chamada The Beautiful Lie, ambientada nos dias atuais.

Keira Knightley protagonizou o filme de 2012.

Novas traduções do livro são constantemente apresentadas, mas não há consenso quanto a ser possível alcançar a qualidade da obra em seu idioma original. Opiniões divergem sobre até que ponto o tradutor deve se afastar da literalidade do texto para se aproximar da intenção do autor.

Alguns críticos ainda defendem a tradução dúbia de 1901, para o inglês, feita por Constance Garnett. Há muitos erros, alguns corrigidos por Leonard Kent e Nina Berberova em uma edição revisada de 1965. Outros preferem a tradução de Louise e Aylmer Maude, de 1918, também para o inglês. Tendo vivido na Rússia, os tradutores puderam repassar cada linha com o autor.

Ambas as traduções ainda são comercializadas, mas muitos críticos contemporâneos preferem traduções novas e com vocabulários mais modernos. Felizmente, a renúncia de Tolstói aos direitos de tradução garante que novas versões venham acompanhadas de reflexões sobre as mudanças inevitáveis no uso da linguagem e nas percepções sociais.

Este romance extraordinário jamais ficará ultrapassado, pois enquanto costumes e atitudes mudam com o tempo — assim como as traduções —, o desejo, em suas várias manifestações, sempre estará conosco, junto com a consciência que decidirá se algum deles deve ser refreado.

Judith Armstrong é professora associada honorária em Artes e Línguas e Lingüística na Universidade de Melbourne.
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