Graphic novel também é romance”: por que os jurados do Booker Prize acertaram ao escolher uma delas como finalista

Depois do anúncio de que Sabrina, de Nick Drnaso (sem tradução no Brasil), é a primeira graphic novel da história indicada ao Man Booker Prize, Joanne Harris (autora de Chocolat, publicada no Brasil com mesmo título) tuitou #TenThingsAboutGraphicNovels — ou #DezCoisasSobreGraphicNovels e declarou, simplesmente: “graphic novel também é romance”.

Joanne Harris diz: “2. Há certa polêmica sobre uma graphic novel como finalista do Man Booker Prize desse ano. Acho isso sensacional e explico por que. #DezCoisasSobreGraphicNovels”. No tuíte seguinte: “3. Graphic novel também é romance. #DezCoisasSobreGraphicNovels”.

 

Em uma época muito, muito distante, graphic novels podiam até ser vistas como superficiais — e não literatura de fato —, mas esse juízo de valor vem sendo questionado desde então.

A autobiografia em quadrinho ganhou visibilidade especial nos últimos anos, sendo que um dos exemplos mais notáveis é Persépolis, de Marjane Satrapi (2000). A obra detalha as experiências de Satrapi ainda jovem durante e após a revolução iraniana de 1979. A graphic novel foi adaptada para o cinema em 2007 (mesmo ano em que a tradução Persépolis foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras).

Cena de quadrinhos. No primeiro dois soldados falam com a garota de burca. No segundo, mesma situação, mas quem grita é a menina.

Uma visão feminina: Persépolis, por Marjane Satrapi. Pantheon Books. No primeiro quadrinho: “É… que… Quando a senhora corre, seu traseiro faz movimentos… sabe… obscenos!”. No segundo quadrinho: “Então que tal não ficarem olhando a minha bunda?”. “Gritei tão alto que nem ousaram me prender”.

 

Publicações em quadrinhos têm uma longa e rica história, como mostra Understanding Comics, livro de Scott McCloud publicado em 1993 (Desvendando os quadrinhos, 2005, Macron Books). O autor examina um texto pré-colombiano sobre Oito Veado “Garra de jaguar”, do códice Zouche-Nuttall, descoberto pelo conquistador Hernan Cortés por volta de 1519. McCloud argumenta que é possível pensar nesses textos já como histórias em quadrinhos. A terminologia também é importante nesse caso. O termo “história em quadrinhos” (“quadrinhos” ou “gibis) geralmente se refere a publicações seriadas. As graphic novels são publicadas no formato de livros. Dito isso, elas compartilham muitas características artísticas e literárias. O roteirista Alan Moore rejeitou o termo — assim como as versões cinematográficas de suas obras — sugerindo que não passa de um jargão de marketing. Assim, sem uma ordem específica — e com essa ressalva em mente —, aqui vai a lista das cinco melhores histórias que li, sejam graphic novels ou quadrinhos.

Grandville, 2009 — sem tradução no Brasil

O autor Bryan Talbot é conhecido dos fãs de histórias em quadrinhos e graphic novels por The Adventures of Luther Arkwright publicada nos anos de 1970 e 1980 (As Aventuras de Luther Arkwright). Grandville é o primeiro volume de uma série de cinco, que narra a história de investigação de um texugo detetive, o Detetive Inspetor LeBrock, acompanhado de seu fiel escudeiro Roderick, o rat.

Nesse universo antropomórfico, humanos aparecem em funções servis, como uma subclasse, em certa comparação crítica aos estereótipos raciais pós-ataques de 11 de setembro. A Grandville do título é uma Paris alternativa, carinhosamente caracterizada por detalhes steampunk e estilo da Belle Époque. A cidade de Grandville é nomeada em referência ao pseudônimo de um artista francês, J. J. Grandville, famoso por suas sátiras da política e da sociedade francesas.

Ratos antropomórficos se enfrentam como gangues vitorianas

Uma ilustração do famoso caricaturista do século 19, J. J. Grandville.

 

O livro se utiliza do intelectualismo de forma sutil — mas, para olhares mais aguçados, vale ficar atento a referências culturais a Édouard Manet, Augustus Egg e Sarah Bernhardt, além da intertextualidade com o Sherlock Holmes de Conan Doyle e clássicos infantis como The Wind in the Willows (O vento nos salgueiros), Tintin e Rupert the Bear (Rupert, o urso).

 

From Hell, 1999 (Do Inferno)
Carrugem puxada por cavalo. De dentro, balões de fala: ’Diga, querida... Gosta de uvas?‘

Ilustração de Eddie Campbell para From Hell.

Cartaz do filme From Hell

From Hell foi adaptado para o cinema, com Johnny Depp e Heather Graham. O autor não aprovou a adaptação. 20th Century Fox

Alan Moore dispensa apresentações aos leitores cult e acadêmicos. Seu trabalho acumulou invejável fortuna crítica, da qual boa parte vem da obra que escolhi, From Hell. Originalmente foi publicada em formato seriado para depois se tornar uma coletânea em volume único — a versão que a maioria dos leitores deve conhecer nos Estados Unidos.

From Hell não é para estômagos delicados: reconta com detalhes sórdidos os assassinatos do final do século 19, e especula que Jack, o Estripador, foi Sir William Gull, médico da Rainha Vitória. A farra assassina de Gull, que teria como objetivo abafar a existência de um herdeiro ilegítimo do trono, é revelada por lentes do imagético maçônico e da misoginia, e nos conduz por uma excursão psicogeográfica pela cidade de Londres. A primorosa arte de Eddie Campbell contrasta os subúrbios privilegiados onde Gull mora com a degradação indigente dos cidadãos de Whitechapel.

Entre o ficcional e o factual, o livro é uma impressionante paródia do interesse turístico mórbido pelos assassinatos. Leitores mais atentos são condicionados à cumplicidade pela própria narrativa.

Maus, 1991(Maus)
Página de quadrinhos de Maus.

Poderoso e comovente: Maus, de Art Spiegelman

Assim como From Hell, o Maus de Art Spiegelman foi publicado originalmente de forma seriada. Spiegelman começou a escrever em 1978 a história de seu pai, Vladek Spiegelman, um sobrevivente do Holocausto. Em vários sentidos, o texto desafia categorizações e gêneros simplistas: é uma ficção, uma autobiografia e uma história.

Outra história antropomórfica, os nazistas são gatos e os membros da comunidade judaica são ratos. O leitor é colocado na posição nada invejável, mas importante, de ter que lidar com o fardo de pós-testemunhar o trauma do regime nazista, ponto realçado pelo uso de recursos literários tais como a moldura narrativa.

Spiegelman parte do período em que começou a escrever, no final da década de 1970, fazendo entrevistas com seu pai, idoso e viúvo. Dali, segue para revisitar os anos de 1930 até o fim do Holocausto, em 1945. O livro ganhou um Prêmio Pulitzer em 1992.

 

The Thrilling Adventures of Lovelace and Babbage, 2015 — sem tradução no Brasil

A espirituosa graphic novel em preto e branco de Sydney Padua se autodescreve como “quadrinhos imaginários sobre um computador imaginário”. Ela coloca em primeiro plano a contribuição de Ada Lovelace à Máquina Diferencial de Charles Babbage, precursora de nossos computadores modernos.

Diversão com os maiores geeks da história. ScienceFriday.com

Como outros exemplos dados aqui, a narrativa é situada em um universo alternativo, que mostra o que teria acontecido caso a Máquina Diferencial tivesse funcionado. Junto com uma trama aventuresca, a graphic novel faz referências a um sem-número de personagens do século 19, como por exemplo Samuel Taylor Coleridge e o Duque de Wellington. Há factóides notas de rodapé e anotações no final do livro que despertariam inveja em escritores como O’Brien ou Mark Z. Danielewski.

 

Dotter of Her Father’s Eyes, 2012 — sem tradução no Brasil

Seria omisso da minha parte se, como admiradora de longa data de James Joyce, eu suprimisse referências a esta biografia em quadrinhos escrita por Mary M. Talbot e premiada com o Costa Awards (com ilustrações de Bryan Talbot, marido dela). A obra acompanha o relacionamento problemático de Lucia Joyce com seu pai e traça paralelos sobre a relação da autora com o seu próprio, o erudito James S. Atherton.

O amor trágico de Lucia por Samuel Beckett — e sua ambição frustrada de se tornar uma dançarina — são belamente sobrepostos às lembranças de Talbot sobre sua criação, além das dificuldades enfrentadas por ambas ao serem criadas por pais literatos. O uso estratégico de cores, tons sépia e o uso frequente da fonte Courier (assim como a fonte desenvolvida pela própria Talbot, usada em outros de seus trabalhos) fazem desse livro uma aventura esteticamente deliciosa.

James Joyce conversa com sua filha Lucia.

James Joyce destila certo machismo contra as aspirações artísticas de sua filha Lucia.

 

Tantas obras-primas, tão pouco tempo

Obviamente, esta lista suprime inúmeros artistas e escritores — figuras não menos importantes como Neil Gaiman, cujo trabalho The Sandman (iniciado em 1989 e publicado no Brasil por várias editoras) foi aclamado pela crítica e expandiu os limites dos tropos góticos e das reflexões metafísicas do gênero.

Para aqueles com inclinação ao humor, a webcomic de Kate Beatons, Hark, A Vagrant (publicada como livro em 2011, sem tradução no Brasil), é uma visão carinhosamente irreverente da literatura e da história, incluindo a hilária tira Dude Watchin’ With the Brontës.

Há também trabalhos recentes vencedores do Prêmio Eisner, cuja última edição aconteceu em julho de 2018 em San Dieg, como parte da Comic-Con. Mais sugestões de leitura podem ser encontradas na lista de finalistas do prêmio.

Docente Sênior em Literatura Inglesa do século 20, Northumbria University, Newcastle.
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