Anthony Burgess é famoso por seu livro Laranja Mecânica. O escritor nasceu há mais de cem anos e sua visão distópica ainda paira sobre a cultura popular. O que talvez seja ainda mais intrigante, porém, é como o livro foi engolido por um  de mundo repleto de espionagem russa, fake news e paranoia.

Durante sua vida, Burgess escreveu mais de trinta romances, 25 livros de não-ficção, três sinfonias e inúmeras outras composições musicais. Apesar disso, 55 anos depois de sua publicação, Laranja Mecânica ainda é sua obra de maior influência.

Anthony Burgess tem um copo na mão direita e sua cigarrilha na mão esquerda, pronto para dizer uma palavra.

Anthony Burgess em 1989. Foto de Helmut Newton. Crédito paraInternational Anthony Burgess Foundation

Um dos exemplos mais inusitados dessa influência foi a apropriação do romance pela comunidade de espionagem. Durante a década de 1970, o título se tornou o codinome de uma suposta campanha que visava derrubar o primeiro-ministro do Reino Unido, Harold Wilson. Esse boato surgiu, aparentemente, devido a temores de que Wilson fosse um agente soviético alçado ao cargo após o envenenamento do antigo líder do Partido Trabalhista, Hugh Gaitskell.

Integrantes do serviço secreto britânico teriam grampeado os telefones de sua equipe, invadido casas e conduzido uma ação para espalhar falsos rumores sobre Wilson na mídia. Tudo isso teria sido planejado visando um golpe que terminaria com o exército tomando o aeroporto de Heathrow e o Palácio de Buckingham; e um primeiro-ministro interino assumindo o poder.

Alex tem diversas hastes de metal em forma de gancho para manter seus olhos abertos enquanto está preso a uma poltrona e é obrigado a assistir cenas grotescas.

Cena do filme de Stanely Kubrik, A laranja mecânica (1972). O jovem Alex (Malcolm McDowell) sofre sua lavagem cerebral após desafiar o sistema e ser capturado pelo Estado.

O simbolismo no uso dessa obra —uma novela que aborda a lavagem cerebral e a desordem civil — é criativo, para dizer o mínimo. Também soa estranho hoje em dia, quando novamente uma especulação desenfreada sobre a forma de fake news e o uso do kompromat (material comprometedor) é usada para manipular disputas presidenciais como a de Donald Trump, que alguns temem estar sob o controle do serviço secreto russo.

Tweet de D. J. Trump.

“Os Democratas inventaram uma história para explicar porque perderam a eleição, e de lavada (306). Por isso inventaram essa: RUSSIA. Fake News!” — Donald J. Trump, 16/02/2017

Pode ser um exagero  da influência exercida pelo livro, mas política e cultura sempre andaram juntas ao longo da história.

David Bowie foi um muito influenciado pelo livro. No início dos anos 1970, tentou produzir um musical sobre outro trabalho de ficção distópica, 1984, mas Sonia Orwell, a viúva do autor George Orwell, não cedeu os direitos do livro ao músico. Bowie então adaptou suas ideias em Diamond Dogs e criou seu próprio mundo distópico: uma sociedade corrompida na qual “a disaffected youth … lived as gangs on roofs and … had the city to themselves” (“uma juventude descontente… vivia como gangues em telhados e… mandavam em toda a cidade”).

Na Grã-Bretanha daquela época, com a escassez de alimentos, cortes de energia e bombardeios do IRA (o Exército Republicano Irlandês), o fascínio artístico por essas ideias não surpreendem. O panorama social inóspito compartilhava muito do clima e da visão do período pós-guerra a que Orwell se referia. Mas o mundo imaginado por Bowie tem muito mais a ver com o “mundo de violências cometidas por adolescentes e retribuídas pelo governo” retratado por Burgess em Laranja Mecânica.

Coincidentemente, Sonia Orwell também teve participação em um incidente que contribuiu para a criação do romance. Em 1944, quando Burgess servia no exército em Gibraltar, foi ela quem enviou a ele uma carta informando sobre o ataque que Lynne, sua esposa, havia sofrido em Londres, perpetrado por quatro soldados americanos. Lynne teve um aborto espontâneo e parece provável que o ocorrido tenha contribuído para sua doença e morte prematura.

 

Violência e catarse

Laranja Mecânica não só explora uma sociedade submersa em atos aleatórios de violência, como também inclui uma cena em que um escritor sem nome é agredido e forçado a assistir ao estupro de sua esposa. Em sua introdução ao romance, Blake Morrison sugere que escrever tal cena teria sido uma forma de catarse para Burgess — embora mais tarde o autor tenha se aborrecido com as acusações de que sua obra fosse uma espécie de estímulo elegante à violência.

Após uma tentativa fracassada dos Rolling Stones em filmar o livro e outra altamente experimental de Andy Warhol, a célebre adaptação de Stanley Kubrick surgiu em 1971 e reforçou seu impacto cultural. Bowie, por exemplo, tomou emprestado o estilo visual e a trilha sonora do filme para seus shows, enquanto seu fascínio pelo idioma inventado por Burgess, o Nadsat, continuaria até seu último álbum, Blackstar — que apresenta uma música praticamente escrita nesse dialeto.

Em 1973, Kubrick retirou sua versão cinematográfica dos cinemas britânicos, pois a exibição do filme gerou um aumento em casos de violência supostamente inspirados pela obra. Burgess sempre vira o filme como um tipo de bênção ambígua. Quando foi lançado nos Estados Unidos, seus editores decidiram cortar o capítulo final, que mostra o protagonista já adulto, desejando se estabelecer e começar uma família. Em vez disso, termina com ele sem arrependimentos e com a mesma mentalidade psicótica de antes do tratamento de lavagem cerebral. Foi essa a versão que Kubrick filmou.

Staley Kubrick toma um café enquanto Malcolm McDowell gesticula. Ambos em pé no set de filmagem.

Bastidores do filme Laranja Mecânica. Kubrick e McDowell conversam no set de filmagem.

Burgess achava que essa edição impedia que o livro funcionasse bem como um romance no qual a edificação moral é parte da essência da narrativa. Ele viu a decisão dos editores como algo decorrente da política da época — e escreveu que seu livro se tornara Kennedyano, enquanto o que ele queria era algo Nixoniano, “sem nenhum resquício de otimismo”. E concluiu: “A América prefere o final mais violento. Quem sou eu para dizer que a América está errada? É tudo uma questão de escolha.”

Philip Seargeant é docente sênior em Linguística Aplicada, The Open University.
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