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O conto “A Princesa e a Raposa” foi criado por um grupo de escritores, artistas e desenvolvedores e utilizando um software inspirado na tecnologia de predição de texto dos celulares. O programa examinou as histórias dos Irmãos Grimm e sugeriu palavras e frases similares. Depois disso, escritores de carne e osso transformaram as sugestões algorítmicas da IA no mais novo conto de fada dos Grimm.

Ilustração de Arthur Rackham para o livro Hansel & Grethel & other tales (João e Maria e outras histórias, 1920).

O conto é sobre a história de uma raposa falante que ajuda o humilde filho do Sr. Miller a livrar uma linda princesa do compromisso de se casar com um príncipe terrível que ela não ama.

Para começo de conversa, os Irmãos Grimm não escreveram, realmente, as suas histórias.  Eles as coletaram de amigos, empregados, trabalhadores e membros da família. Claro, os contos de fadas sempre são recontados. Eles ganham vida ao serem contados, quando uma criança escuta um audiolivro no carro, assiste ao DVD da Branca de Neve e o Caçador ou canta as músicas do Shrek, o Musical no teatro.

Suas histórias foram publicadas pela primeira vez em 1812 e nunca mais saíram de circulação. Os irmãos Grimm participaram da luta pela unificação da Alemanha e, por questões de identidade nacional, queriam provar que os alemães, como povo em si, tinham o seu próprio folclore. Eram também militantes políticos e foram uns dos Sete de Gotinga que se negaram a jurar lealdade ao novo rei de Hanover, quando este vetou uma constituição mais liberal. Como conseqüência, os irmãos perderam seus empregos e Jacob Grimm – como muitos personagens nos contos de fadas – foi mandado para o exílio.

Desde então, os Contos de Fadas dos Grimm vêm sendo traduzidos para centenas de idiomas e recontados sucessivas vezes. Eles inspiraram milhares de outros trabalhos, desde a Câmara Sangrenta de Angela Carter até A Casa da Árvore dos Horrores de Os Simpsons.

Jacob Grimm não era apenas um colecionador de contos folclóricos, mas também era filologista e lexicógrafo, e seu trabalho ainda é influente nos dias de hoje. Além de ser um grande contador de história, as ideias que ele desenvolveu ainda são estudadas nas universidades. A Lei de Grimm — assim chamada em homenagem a Jacob Grimm — analisa como o som muda ao passar de uma língua para outra. A letra P tende a virar F, enquanto que o G vira W e assim por diante.

Felizes para sempre

Ilustração de Arthur Rackham para o livro Rip Van Winkle (1919).

Os contos dos Grimm ainda são passados de geração a geração. E mesmo que seu elenco de princesas e criadores de porcos pareça estar bem longe da realidade em que vivemos, essas histórias ainda são uma parte crucial da nossa herança cultural. As histórias encontradas por eles no norte da Alemanha no início do século XIX agora pertencem a todos nós.

Como uma criança criada em Oxford, meu pai — refugiado alemão e, como Jacob, um filologista — costumava me contar a história do Príncipe Sapo durante as nossas caminhadas dominicais pelos jardins do Palácio de Blenheim.

Ilustração de Virginia Frances Sterret para o livro Old French Fairy Tales (1920).

Na versão do meu pai, a princesa e o sapo se conheceram às margens do lago — projetado por Capability Brown para o primeiro Duque de Marlborough — quando ela deixou cair seu brinquedo favorito, uma bola dourada, dentro d’água. Quando tiveram seu final feliz, o casal comemorou colocando bolas de ouro no topo do Palácio.  Hoje, quando me lembro dessa história, eu penso no Palácio de Blenheim e ouço o barulho do sapo pulando no lago, igualzinho ao que eu acreditava ouvir nos meus tempos de criança.

Esse é o poder das histórias, elas conseguem conectar os contadores aos lugares — aí está a essência dos seus mistérios e magias. Quando ouvimos uma história, ela muda a forma de encararmos o mundo. E esse será o único teste do “novo conto dos Grimm”: saber se será passado adiante e se ganhará vida ao ser contado.

Departamento de Leitura na faculdade de Arte e Mídia, Royal Holloway, Universidade de Londres
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