O que leva leitores, geração a fio, a continuar se emocionando com os livros de Charlotte Brontë, especialmente Jane Eyre?

Os romances de Brontë são bildungsromane — romances de formação —,mas diferenciam-se notoriamente dos livros de Jane Austen sobre a entrada das mulheres no mundo adulto.

A educação da heroína de Austen tem um viés moralista nitidamente destacado para o leitor. Algumas dicas óbvias aparecem no texto, e logo entendemos que, para sair de casa e se casar com “um homem solteiro e rico”, a heroína precisa escolher entre aprender a dosar sua sensibilidade com pitadas de razão, lutar contra preconceitos, evitar interferir no que não lhe diz respeito ou, ainda, deixar-se persuadir facilmente.

Retrato da autora

Charlotte Brontë. Evert A. Duyckinck, 1873. Cortesia da University of Texas.

Por outro lado, as heroínas de Brontë se debatem com questões que, antes mesmo de se tornarem éticas, são psicologicamente complexas, como resistir à tentação de um relacionamento no qual não são amadas de verdade; conseguir respeito sem ter condição social; ou continuar amiga da pessoa que invejam.

Não há prenúncio de respostas a essas perguntas e, escandalosamente para muitos de seus primeiros leitores, empregam o privilégio dos princípios de autoconhecimento e autoexpressão em detrimento ao moralismo cristão imposto.

Brontë também não apresentava as eventuais decisões tomadas por suas heroínas como fáceis, que valessem o sacrifício ou que tivessem um “reconhecimento universal”.

Juliet Barker, acadêmica e autora da biografia da escritora, notou que:

Todas as heroínas de Charlotte […] são órfãs.

Não são bonitas nem ricas (geralmente precisam trabalhar para se sustentar), e mesmo assim asseguram seu direito a uma vida interior bela e plena.

“Acha que porque sou pobre, desconhecida, comum e baixinha, não tenho coração e alma? Está enganado!” — Jane Eyre declara a Rochester.

Esses livros garantem que qualquer um de nós, por mais desprovidos de tudo, podemos defender a integridade de nossos sentimentos. E podemos demonstrá-los com cuidado e precisão, por meio da linguagem.

Jane Eyre foi o primeiro romance publicado de Brontë, porém não foi seu primeiro trabalho de ficção. Ela e suas igualmente precoces irmãs Branwell, Emily e Anne, vinham produzindo “livretos” desde que Charlotte tinha 11 anos. Em seu segundo mais antigo manuscrito, The History of the Year [“A história do ano”], redigido em março de 1829, ela conta que:

Papai comprou uns soldadinhos para a Branwell em Leeds. Ele chegou em casa tarde e já estávamos na cama. Na manhã seguinte, Branwell se apareceu na porta do quarto com uma caixa cheia de soldadinhos de brinquedo. Emily e eu pulamos da cama e, ao agarrar um deles, exclamei: “Esse é o Duque de Wellington! Quero para mim”. Ao dizer isso, Emily escolheu outro e afirmou que seria o seu. E assim que Anne desceu, também escolheu um.

Uma mão com luvas brancas segura um caderno minúsculo com aproximadamente 7 centímetros de largura aberto.

Manuscrito em miniatura datado de 1830, escrito por Charlotte Brontë quando ela tinha 14 anos. Ele contém mais de quatro mil palavras em dezenove páginas. Foto de Charles Platiau / Reuters

Os soldadinhos de brinquedo serviram para inaugurar o que as meninas Brontë denominariam de “nossas peças teatrais”: jogos intermináveis ambientados em mundos fictícios, como nos contos Glass Town, Angria e Gondal, todos redigidos com caligrafia minúscula em “livretos” em miniatura.

As irmãs continuaram escrevendo esses contos e poemas em coautoria até depois dos seus vinte anos. São admiráveis não apenas pelo uso precoce da linguagem, mas por seu emergente e aguçado erotismo. Seus heróis são inspirados em Byron e suas heroínas são lindas, afortunadas e frequentemente masoquistas.

Apesar dessas tentativas iniciais de escrita das irmãs Brontë apresentarem traços de elementos góticos e românticos, a “pobre misteriosa, comum e baixinha” Jane Eyre, e a enigmática, maltratada e independente Lucy Snowe de Villette (1853) são, em comparação, tentativas fracassadas.

Quando Charlotte começou a escrever romances, ela recorreu à memória, mas também à imaginação, e as suntuosas locações de Angria abriram caminho para um mundo reconhecível, de imagens cotidianas e nítidas: a “tortura que é enfiar os dedos dos pés inchados, duros e doloridos nos sapatos pela manhã” em Jane Eyre; o mastim Tartar “cheirando as flores frescas” derramadas no chão em Shirley (1849); meros itens de mobília flutuando na volta à consciência, quando Lucy Snowe se recupera da doença em Villette.

Capa do livro Villette, de Charlotte Brontë, 1853.

Capa do livro Villette, de Charlotte Brontë, 1853.

São esses detalhes realistas, assim como os conflitos apaixonantes e as emoções que os amparam, que nos permitem guardar as histórias de Charlotte Brontë na memória, mesmo após o término da leitura.

As irmãs Brontë publicaram seus primeiros romances e poemas usando pseudônimos como Currer, Ellis e Acton Bell. Embora uma coleção de seus poemas, publicados em 1846, tenha vendido apenas três cópias, o mistério sobre a autoria tornou-se uma questão logo após o estrondoso sucesso de Jane Eyre, que saiu no ano seguinte.

Leitores e críticos especulavam não apenas sobre o gênero dos autores, mas também sobre serem de fato um, dois ou três escritores.

Assim começou o complexo entrelaçamento, que continua até hoje, do apreço crítico aos romances de Brontë e suas especulações biográficas.

As experiências de Jane Eyre na escola de Lowood reproduzem o que Charlotte viveu na conservadora e religiosa escola de Cowan Bridge. Ambas as obras, Villette e Professor (1857), exploram esse período — primeiro como estudante e depois como professora, na escola Heger, em Bruxelas. A Shirley de Shirley Keeldar e Caroline Helstone são retratos autênticos de Emily e Anne: ambas morreram durante a criação do romance.

A tentação de replicar as conexões entre arte e vida ganhou maior impulso com a publicação do livro de Elizabeth Gaskell, A vida de Charlotte Brontë, em 1857, dois anos após a morte de Charlotte. O trabalho pretendia restaurar a reputação da autora e protegê-la das acusações de rudeza e falta de feminilidade.

Todavia, Gaskell conseguiu dar o devido destaque ao mito permanente de Charlotte Brontë: a filha de um devoto homem da Igreja, proveniente de um povoado localizado no condado de Yorkshire, e cujas escandalosas representações dos desejos femininos e franqueza eram apenas produtos da inocência, e não de de experiências vividas.

A emoção dos novos leitores, mesmo duzentos anos após o nascimento de Charlotte Brontë, ainda reage à moderna psicologia de seus personagens e à identificação direta que sua narrativa em primeira pessoa provoca e ao sensual imediatismo da realidade do século 19 que ela evoca de forma tão irresistível.

 

Vanessa Smith é professor de Inglês na University of Sydney.
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