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Quando o filho de Rudyard Kipling desapareceu

John Kipling desapareceu em ação na Batalha de Loos, no norte da França, cem anos atrás, em 27 de setembro de 1915. O tenente de dezoito anos de idade foi provavelmente o soldado mais procurado da Primeira Guerra Mundial. Seu pai era, na época, o primeiro britânico vencedor do Nobel de literatura e o mais importante poeta do império. Texto de Nina Martyris com tradução de Ricardo Giassetti.

 

Um frenético Rudyard Kipling mobilizou todas os recursos disponíveis. O Príncipe de Gales, a Princesa da Suécia e o embaixador americano em Londres tentaram ajudar. O Royal Flying Corps jogou panfletos mimeografados atrás das linhas inimigas para o caso do “Sohn des weltberühmten Schriftstellers Rudyard Kipling (o filho do escritor mundialmente famoso Rudyard Kipling)” tivesse sido raptado ou feito prisioneiro. Para a esposa de Kipling, Carrie, a ameaça de captura era uma possibilidade ainda pior do que a morte: o ódio de seu marido pelos Hunos (termo que Kipling usava para os alemães, quando não os chamava de “animais selvagens” ou “O Mal Encarnado”) tinha sido exaltado em seus discursos de recrutamento e artigos jornalísticos. Como os “hunos” trataria seu filho ferido se o tivessem capturado?

Ansiosos de forma doentia, Carrie e Rudyard visitaram hospitais de guerra e entrevistaram soldados do regimento de John, da Guarda Irlandesa, na esperança de qualquer informação. Não conseguiram nenhuma resposta conclusiva. Uma testemunha ocular disse a um amigo deles que uma bomba havia explodido sobre John, esmagando sua mandíbula e deixando-o aos berros de dor. O amigo, porém, considerou cruel demais transmitir essa informação aos Kiplings. John estava destinado, assim como o Drummer Hodge, de Thomas Hardy, a permanecer “desenterrado” até 1992, quando seus restos foram supostamente encontrados em Chalk Pit Wood — embora ainda haja dúvidas sobre essa afirmação.

Kipling registrou sua busca angustiante no sombrio poema de 1916, “My Boy Jack”, no qual um pai pede notícias, qualquer notícia, de seu filho marinheiro, apenas para receber a resposta impávida: “Não com este vento soprando e essa maré” (Este era o segundo filho que os Kiplings perdiam. Sua filha de seis anos, Josephine, para quem as histórias de “O livro da selva” foram escritas, morreu de pneumonia, em Nova York, em 1899.)

“Este livro pertence a Josephine Kipling, para quem ele foi escrito por seu pai.”

Kipling é frequentemente ridicularizado como um fanático imperialista que prostituiu seu incrível talento para a propaganda e a política. Mesmo durante a guerra, ele recebia cartas dizendo que merecia ter perdido seu filho por ter apoiado a guerra. Mas isso era uma leitura errônea de suas repetidas advertências sobre uma invasão alemã, contra a qual ele disse que a Grã-Bretanha deveria se preparar. Ele certamente se entregava ao culto ao império, mas esse era apenas um dos aspectos desse homem paradoxal e contencioso. Em sua poesia, Kipling dramatiza a guerra como uma aflição primitiva, que desencadeia alegria, raiva e terror. O fantasma de John assombra esses textos, chamuscando-os com raiva. Em “The Children”, por exemplo, o poeta reitera tranquilamente a promessa de retribuição, apenas para retornar a um insuportável impasse: “Mas quem nos devolverá nossos filhos?” O poema “A Death-Bed” pretende ser abertamente desagradável, comemorando a notícia de que o Kaiser alemão tem câncer na garganta; a tristeza e a ira sinistras convergem para uma palavra desdenhosa que ele usa para descrever o homem que ele considera ser o responsável pela guerra: coisa.

Some die shouting in gas or fire;

Some die silent, by shell and shot.

Some die desperate, caught on the wire;

Some die suddenly. This will not.

(Alguns morrem agonizando com gás ou fogo;

Outros, em silêncio, por bombas ou tiros;

Outros, desesperados, presos no arame;

Outros, sem aviso. Menos a coisa.)

 

A melhor história de guerra de Kipling, “Mary Postgate”, foi alimentada pelo ódio. A personagem-título é uma solteirona de quarenta e quatro anos que ajudou a criar um jovem chamado Wynn, que se tornou piloto na guerra. Devastada pela notícia de que ele foi morto durante um vôo de teste, ela vai ao seu jardim para fazer uma fogueira com os pertences dele. Quando ouve um gemido, ela olha em volta e descobre um piloto alemão ferido preso sob uma árvore. Ele implora por um médico, mas Mary só pensa em Wynn, e no corpo “rasgado e dilacerado” de uma camponesa recém-morta por uma bomba que poderia ter sido lançada por essa “coisa de cabeça franzida encolhida sob o carvalho.” “Nein,” ela responde duramente. Então, enquanto observa a chama do fogo e ouve os gritos de piedade do alemão, é alçada a um estado emocional tão intenso que quase se equipara a um orgasmo: “um arrebatamento intenso a atingiu. Ela deixou de pensar. Se entregou para sentir… respirou fundo entre os dentes e estremeceu da cabeça aos pés.” Depois que a “coisa” fica quieta e “as coisas de Wynn” viraram cinzas, Mary entra para tomar um longo banho quente. Depois, ela se esparrama no sofá sentindo-se “muito bela”. Um conhecido escandalizado de Kipling a chamou de “a pior história já escrita”. Ao tocar as fontes eróticas de violência, tão vitais para a guerra, e se despir de todas as normas da decência, Kipling ilumina as profundezas das nossas mais sombrias fantasias de vingança.

A história, publicada em 1917, expôs a reputação de Kipling como um velho demente e reacionário. Mas as pessoas continuaram a lê-lo: ele continuou sendo o poeta mais popular na Inglaterra durante a guerra. (Wilfred Owen e Siegfried Sassoon só ficariam famosos muito mais tarde. Rupert Brooke era conhecido na época principalmente por um único soneto, “The Soldier”.) A postura agressivamente patriótica de Kipling sobre a guerra era bem conhecida, graças às suas atividades de angariação de fundos para a Guerras dos Bôeres, na África, que ele chamou, profeticamente, de “um desfile de primeira classe para o Apocalipse”. Um único poema dele, “The Absent-Minded Beggar”, musicado por Arthur Sullivan, levantou impressionantes 250 mil libras para as famílias dos soldados.

Sua conexão com os Tommies era um regresso às suas “Barrack-Room Ballads”, publicadas em 1892, quando tinha vinte e poucos anos. Ele reuniu o material para elas com a ajuda de copos de cerveja para a guarnição perto de Lahore, onde adorava se apresentar como um jovem jornalista indiano. Toda aquela camaradagem movida à cerveja permitiu que ele se tornasse um capelão secular dos “horrores da vida do soldado”. Os soldados de seus poemas são bêbados, saqueadores e sifilíticos delirantes, porque “solteiros aquartelados não se transformam em santos de gesso”. Mas, como ele nunca deixava de lembrar de seus leitores intelectuais, eles não deixavam de ser um grupo de irmãos nas armas cujo suor salgava o vasto império da “Rainha Vitória”. Somente em 1915, “Baladas da Barrack” vendeu 29.000 cópias. Os soldados levaram esses poemas para as linhas de frente em Flandres, na França, e na Palestina. Agachado no Somme, o poeta Ivor Gurney leu “The Fringes of the Fleet”, o livreto de esboços navais de Kipling. Quando em Londres, Edward Elgar musicou os poemas de Kipling, que foram apresentados em concertos lotados. Em seu livro de memórias, “Testament of Youth”, a enfermeira de guerra Vera Brittain lembrou quando “os gemidos dos homens anestesiados transformavam a enfermaria em um balbúrdia”, ela perseverada recitando baixinho dois dos versos de “Dirge of Dead”, o perturbador poema de Kipling dedicado às enfermeiras mortas na Guerra dos Bôeres.

Fonte: World War One Color Photos

Kipling era velho demais para servir na guerra. Na verdade, ao longo de toda a sua vida, ele nunca presenciou um dia de ação. Sua ingenuidade sobre a luta fica clara nas cartas que escreveu a John pedindo-lhe para cobrir sua trincheira com telas de gaiolas de coelho para se proteger das bombas. A maioria dos poetas de guerra se concentrava no que viam ao redor deles: o sofrimento da infantaria inglesa no Front Ocidental. Kipling trazia uma perspectiva diferente. Nascido em Bombaim, filho do Império, seu olhar alcançava até as fronteiras. Seus “Epitaphs of the War” saúdam uma gama desconhecida de atores, desde o Sepoy Hindu, na França (um milhão de soldados indianos lutaram na guerra), até as vítimas no distante Cairo e em Salônica. As outras alas das forças armadas também foram lembradas: marinheiros submarinos enfrentando “ovos da morte” nas “águas revoltas” e o jovem piloto da R.A.F., “ainda com seus dentes de leite”, bombardeando cidades inimigas.

Kipling chegou a dedicar um dístico ao abominável desertor. Em “The Coward”, a pessoa que merece o epíteto titular não é o soldado que desertou, mas o líder que ordenou que os desertores fossem mortos. (“I could not look on Death, which being known, / Men led me to him, blindfold and alone.” — “Eu não poderia encarar a Morte, o que era sabido, / Homens me levaram para ela, vendado e sozinho.”) Ao longo da guerra, a raiva de Kipling contra os Hunos foi acompanhada por seu ódio contra generais incompetentes. Ele feriu esses “comandantes incapazes” tão implacavelmente quanto Sassoon, invocando a metáfora bíblica para aumentar a magnitude da traição:

They believed us and perished for it. Our statecraft, our learning

Delivered them bound to the Pit and alive to the burning.

(Eles acreditaram em nós e pereceram pela causa. Nossa política, nosso aprendizado

Entregou-os presos nas trincheiras para serem queimados vivos.)

 

A família Kipling já sem Josephine e com John à direita.

Ainda assim, ele continuou sendo um conservador antiquado que acreditava no valor, no sacrifício e na defesa da Coroa. Enquanto Wilfred Owen denunciava a máxima patriótica de Horácio, “Dulce et decorum est pro patria mori”, como “a velha mentira”, Kipling continuava a seguir Horácio, a quem estudara na escola, durante toda a guerra. Como membro da War Graves Commission (Comissão de Sepulturas de Guerra), ele sugeriu que a inscrição mais adequada seria a mais simples: “Ele morreu por seu país”.

Em memória a John, Kipling, aos cinquenta anos, assumiu a tarefa de escrever a história dos Irish Guards. Foi uma tarefa tediosa e exaustiva que levou sete anos e o deixou, segundo o diário de Carrie, “pálido e enrugado”. Durante os anos de guerra, ele se debruçou estoicamente sobre seus deveres públicos: trabalhos para a Cruz Vermelha, visitas os feridos, visitas ao front, redigir poemas e histórias. O estoicismo, afinal, foi a pedra angular de “If”, o manifesto de masculinidade dedicado a John, que foi repetidamente votado como o mais amado poema da Grã-Bretanha. Mas assim como “If” foi escrito para John, também, em um caso de simetria excessivamente amarga, houve outro poema histórico de Kipling que também se iniciava com a palavra-título:

If any question why we died,

Tell them, because our fathers lied.

(Se há alguma pergunta do porquê morremos,

Diga-lhes: por que nossos pais mentiram.)

 

As mentiras que Kipling tinha em mente eram as meias-verdades e distorções que os políticos e formadores de opinião do país às quais haviam recorrido em tempos de guerra, a fim de provocar uma beligerância de sangue-e-farda. O próprio Kipling tinha espalhado maliciosamente os piores rumores de atrocidades alemãs na Bélgica. Mas a culpa que o consumia foi capturada nesse dístico brutal, fazendo lembrar outra coisa que Kipling realizou: usar sua influência para conseguir o alistamento de John, depois do jovem ter sido rejeitado duas vezes por causa da miopia. Ao fazê-lo, Kipling abriu a porta para o matadouro que era o Front Ocidental e por ali adentrou seu único filho. No abismo entre esses dois poéticos “ses” — um celebrando o heroísmo e a masculinidade, o outro desmascarando os homens que manipulam esses ideais necessários — está a trágica ironia de Rudyard Kipling e da guerra.

 

Nina Martyris também escreve para The Guardian, The New Republic, Slate e outras publicações.

Leia o artigo original na New Yorker.

© 2015, 2018 Nina Martyris cedido gentilmente pela autora para esta tradução. tradução © 2018, Mojo