Parte do motivo é que as Aventuras de Alice no País das Maravilhas foi um divisor de águas da literatura infantil. Antes disso, livros e histórias para crianças costumavam ter um foco rigoroso em educação e aprimoramento moral. A maioria dos livros servia para ensinar a criança a ser boazinha em vez de entreter ou provocar a imaginação. Lewis Carroll mudou isso.

Ilustração de Sir John Tenniel.

Alice sabe-tudo

Em vez de instruir a criança, Carroll coloca no centro da narrativa uma menina jovem que ensina adultos em um mundo em que tudo é às avessas. Alice dá dicas de boas maneiras a torto e a direito e repreende os habitantes do País das Maravilhas por serem rudes e malucos. Ela sabe de tudo — adultos não são confiáveis ou lógicos e são um pouquinho loucos também. Foi uma reviravolta completa na forma como crianças e adultos haviam sido retratados na literatura até então.

O resultado é hilário: o humor irreverente do livro apela para a natureza anárquica das crianças. Por exemplo, respeitados versos da época são bruscamente parodiados. O Chapeleiro Louco recita: “Brilha, brilha, morceguinho! Quero ver você brilha!”, enquanto Alice apresenta uma versão cômica de “Os confortos do velho e como ele os ganhou”, de Robert Southey.

Carroll usa a narrativa para zombar do estilo vitoriano de educação. Alice usa palavras longas que não entende porque acha que são importantes. Na escola, o Jabuti de Mentira aprendeu “língua tortuguesa e aguografia” e os “diferentes ramos da Aritmética: ambição, distração, irrisão e enfeamento”. Trocadilhos, absurdos, humor, paródia e troca de papéis: esses são os ingredientes essenciais dos livros infantis de hoje, graças à Carroll.

 

(Mal-)interpretando o mistério

As razões para o sucesso de Alice fora do Reino Unido são um pouco mais complexas, mas podem ter relação com a percepção da inerente qualidade britânica do livro. O País das Maravilhas tem uma rainha, festas de chá, jogos de croqué e serviçais. A visão nostálgica de uma sociedade vitoriana romantizada é, certamente, parte do apelo. Esses são alguns dos mesmos ingredientes que fizeram Downton Abbey ou a série Harry Potter tão bem-sucedidos ao redor do mundo.

Ilustração de Sir John Tenniel.

Mas, talvez ainda mais intrigante, há uma persistente sugestão de que o livro tem um lado mais obscuro. Já foi sugerido várias vezes que as muitas comidas mágicas que Alice consome no País das Maravilhas podem aludir à drogas. De fato, ela come parte de um cogumelo mágico enquanto conversa com uma lagarta que fuma narguilé. Isso é uma interpretação da cultura pop, baseada na forma como as sequências surreais do livro foram vistas por outras gerações — principalmente a cultura hippie dos anos 1960 e 1970 — sem qualquer evidência concreta. Mas é uma leitura que continua até hoje, como demonstrado nas primeiras cenas de Matrix.

Talvez mais preocupante sejam as dúvidas e aspersões lançadas no interesse de Lewis Carroll em Alice Liddell, a menininha para quem a história foi contada inicialmente. Lewis de fato tirava fotos de meninas jovens, o que pode parecer suspeito nos dias de hoje apesar de estudos recentes terem demonstrado que tais suspeitas são infundadas. Mas os boatos não desapareceram.

 

Sempre um quebra-cabeça

Outros leitores vão mais fundo ainda no texto, à procura de significados. Em uma leitura, o ambiente onírico da história é uma metáfora para uma viagem pessoal interior em busca dos desejos incontroláveis do subconsciente. Também, Alice ameaça comer muitos dos personagens do País das Maravilhas, talvez retratando o estágio oral do desenvolvimento psicossexual de Freud. Continuamente perguntam a ela: “Quem é você?”, ao que Alice nem sempre tem uma resposta clara.

Ilustração de Sir John Tenniel.

Pode também ser uma alegoria ao tumultuoso processo de crescimento, representado por Alice literalmente acordando para a realidade no fim da história. A busca por um sentido profundo é ainda mais cativante por conta da aparente falta de significado dos encontros estranhos e absurdos de Alice.

No final, Alice no País das Maravilhas é um exemplo maravilhoso de um “texto aberto” — um texto que pode significar o que você quer que ele signifique, dependendo de sua perspectiva. Tornou-se folclore, um meme que amamos reproduzir. É uma história ambivalente que aceita inúmeras interpretações. Contos de fadas sobrevivem porque são versáteis: significam coisas diferentes em contextos diferentes. Alice no País das Maravilhas tornou-se uma espécie de conto de fadas moderno, e sem dúvida continuará a ser adaptado e interpretado por muitos anos.

Docente de Língua Inglesa na Cardiff Metropolitan University.
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