Em suas jornadas solitárias, as personagens meninas são mais vulneráveis e fracas fisicamente. Apesar de sua impotência em aspectos convencionais, heroínas como Alice e Dorothy são capazes de sobreviver aos perigos representados por pessoas e seres sobrenaturais que possuem vantagens não disponíveis a elas — autoridade adulta e magia, por exemplo.

 

Alice ilustrada por Sir John Tenniel — Fonte.

A origem de Alice no País das Maravilhas como a história que Charles Dodgson contava a Alice Liddell, de dez anos, e a suas irmãs enquanto remavam pelo Tâmisa em 1862 é bem conhecida. O que se discute ainda é por que essa história se tornou um sólido marco cultural no mundo todo.

Muitas histórias populares podem ser sintetizadas pela estrutura básica de um herói, homem, e sua jornada. Em 1949, Joseph Campbell descreveu as características mais comuns do “monomito”, ou “a jornada do herói”, evidentes nas histórias de Buda, Jesus e até Luke Skywalker.

Na contramão da predominância de histórias heroicas masculinas há diversas narrativas icônicas de meninas pré-adolescentes em jornadas por mundos em eternos fenômenos fantásticos e oníricos.

Assim como a onipresente Alice, Dorothy Gale, de O Mágico OZ, criou vida própria para além dos livros de L. Frank Baum. A jornada da órfã do Kansas para Oz é mais conhecida pelo filme da MGM estrelado por Judy Garland. O filme transforma a jornada de Dorothy em nada mais que um sonho — como a própria jornada de Alice — inspirado por um golpe na cabeça causado pelo ciclone.

As histórias de Alice, Dorothy e outras meninas protagonistas da literatura de fantasia mais recentes — como os encontros de Sarah com o Rei dos Duendes em Labirinto, filme de 1986 — são profundamente influenciadas pela tradição dos contos de fada. O próprio Campbell reconheceu que “foi preciso abordar os contos de fada” para traçar aproximações com o heroísmo feminino em O herói de mil faces.

Dorothy é uma menina muito mais nova nas ilustrações de W. W. Denslow — Fonte.

Como a estudiosa de contos de fada Rebecca Anne do Rozario explica em sua obra, os contos de fada são geralmente sobre meninas prestes a amadurecer e a se casar. No entanto, em suas encarnações nos livros originais, tanto Alice quanto Dorothy são meninas muito novas: Alice tem apenas sete anos e estima-se que Dorothy tenha oito. Carroll tinha uma notável fascinação por meninas pré-adolescentes, frequentemente fotografando-as.

A pouca idade de Alice e Dorothy as liberta do envolvimento romântico. Na ficção para meninas do início do século 20, era comum que as heroínas aventureiras ficassem noivas precocemente nas últimas páginas de um romance.

Com maior importância, como meninas, Alice e Dorothy ocupam uma fronteira transicional entre a infância e a idade adulta. Isso também parece torná-las mais aptas para cruzar as fronteiras entre a fantasia e a realidade.

Contudo, é questionável se essa capacidade deriva da combinação de opiniões negativas de que crianças e mulheres são menos racionais do que adultos e homens ou denota que meninas são mais perspicazes e empáticas.

Alice Liddell fotografada por Lewis Carroll.

O que está claro é que essas pequenas heroínas tomam caminhos diferentes dos personagens das típicas jornadas dos heróis masculinos. Mesmo dentro da literatura fantástica, onde tudo é possível, existem distinções de gênero claras para os protagonistas.

Lenise Prater, minha colega da Universidade de Deakin, salientou em um importante diálogo acadêmico sobre o tópico comigo (pelo Facebook) que as jornadas das heroínas na fantasia tendem a envolver uma jornada interna que acontece em um mundo de sonhos. Por outro lado, os heróis masculinos entram em mundos fantásticos literais e suas aventuras são supostamente “reais” no decorrer da história.

As aventuras oníricas de Alice lidam ou brincam com alguns de seus interesses e ansiedades reais. Assim como no texto de Carroll, a adaptação cinematográfica de Tim Burton sinaliza explicitamente que o País das Maravilhas é simplesmente um lugar imaginário. Alice tem pesadelos com o País das Maravilhas quando criança e seu pai a lembra de que seus sonhos não podem machucá-la e que ela “sempre pode acordar”.

Judy Garland e os outros atores em um still publicitário do filme O Mágico de Oz.

O filme de Oz, da MGM, transforma a jornada de Dorothy em um sonho ao elencar os mesmos atores em papéis no Kansas de tom sépia e em Oz em Technicolor. Os fazendeiros Hunk, Hickory e Zeke são o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde, e a vizinha Almira Gulch prova que todos que odeiam cachorros são, certamente, bruxas de pele verde.

Em suas jornadas solitárias, as personagens meninas são mais vulneráveis e fracas fisicamente. Apesar de sua impotência em aspectos convencionais, heroínas como Alice e Dorothy são capazes de sobreviver aos perigos representados por pessoas e seres sobrenaturais que possuem vantagens não disponíveis a elas — autoridade adulta e magia, por exemplo.

As vidas de Alice e Dorothy para além dos livros de Carroll e Baum sugerem um investimento cultural em histórias sobre perfis mais vulneráveis. Alice e Dorothy vivem as mais incríveis jornadas, triunfando sobre as mais altas formas de autoridade e poder, de rainhas a bruxas.

É animador o fato de que essas histórias sobre meninas, frequentemente ignoradas devido a sua idade e gênero, sejam conhecidas quase universalmente. No entanto, imaginemos as possibilidades se nossas personagens meninas mais icônicas nem sempre tivessem que “acordar” no fim de suas aventuras.

Pesquisadora de literatura inglesa, Universidade Deakin
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