Frankenstein, de Mary Shelley.

Desde 1953, o Hugo Awards tem sido um dos prêmios de ficção científica mais prestigiados. Entre seu premiados estão Isaac Asimov, Arthur C. Clark e Ursula Le Guin. Nos resultados de 2016, as mulheres e a diversidade foram as evidentes vencedoras.

No entanto, se você tivesse visto a lista de títulos na disputa pelo prêmio, teria notado algumas peculiaridades, como o Space Raptor Butt Invasion, de Chuck Tingle e The Cutie Map, um episódio de My Little Pony. Isso aconteceu porque o prêmio — nomeado e votado por escritores e leitores de ficção científica — foi alvo de dois principais blocos de votação: os Sad Puppies, que começaram sua campanha em 2013, e os Rabid Puppies, que surgiram um ano depois e estão ganhando força desde então.

Os Sad Puppies queriam ficções científicas mais tradicionais e convencionais na votação. Os Rabid Puppies, mais extremistas e ligados ao movimento Gamergate, queriam apenas criar caos. Por isso, seu bloco incluía obras aparentemente ridículas: tanto para zombar do prêmio como para superlotar a lista e evitar que outros livros fossem nomeados.

A queixa de ambos os grupos se refere às tendências contemporâneas na ficção científica para que o gênero inclua mais obras literárias com temas progressistas. Vox Day, líder dos Rabid Puppies, protesta que “editores estão tentando empurrar romances espaciais e discurso esquerdistas sobre diversidade como sendo ficção científica”. O líder dos Sad Puppies do ano passado, Brad R. Torgersen, igualmente se queixa de que “formados em soft science (graduações em literatura e humanidades) usam ficção científica como ferramenta para avaliar e dissecar a sociedade ocidental do século 21”. Os Hugos, ele diz, estão sendo usados como um “prêmio de ação afirmativa”.

Um número significante desses “formados em soft science” que escrevem “discursos esquerdistas sobre diversidade” são, é claro, mulheres. Escritoras predominaram nos últimos prêmios de ficção científica.  

Naquele ano, as mulheres e etnias diversas se destacaram mais do que o normal. Ironicamente, as ações dos Puppies estimularam membros mais progressistas da World Science Fiction Society a usarem seus direitos a voto. O melhor romance foi The Fifth Season, a história de um planeta vivenciando uma mudança climática apocalíptica, escrito por NK Jemisin — uma escritora negra. A melhor novela foi Binti, de Nnedi Okorafor. O melhor conto, Cat Pictures Please, foi escrito por Naomi Kritzer e os dois prêmios de melhor editor foram ambos para mulheres.

Porém, essa saga em curso dos Puppies e suas tentativas de desvirtuar os Hugos representam conflitos maiores dentro da esfera da ficção científica — um gênero de enorme popularidade, lucro e controvérsia que tem grandes problemas com as mulheres.

 

Um gênero dominado pelo masculino

Nos anos recentes, os best-sellers “Divergente” e “Jogos Vorazes”, ambos escritos por mulheres, foram adaptados para filmes multimilionários. Porém, a contribuição feminina na ficção científica passou historicamente despercebida — como uma conferida em qualquer lista de compilação dos “melhores” livros de ficção científica irá confirmar.

A lista dos dez melhores livros Hard Science da MIT Technology Review inclui uma mulher. (“Hard sci-fi” tende a se ater a teorias científicas reais e leis da física. Mais sobre isso adiante.)

Os despossuídos, de Ursula K. Le Guin.

A “lista dos 50 livros de ficção científica que você deve ler”, da Forbidden Planet, inclui três mulheres, com Ursula K Le Guin aparecendo duas vezes (constituindo, assim, 92% homens). O site Best Science Fiction Books tem quatro mulheres em sua lista dos 25 melhores (84% homens). E a lista das melhores ficções científicas do Goodreads tem dez mulheres no top 100 (88% homens), com livros de Le Guin escolhidos três vezes (com A Mão Esquerda da Escuridão (1969), Os Despossuídos (1974), e O Tormento dos Céus (1971) — e todos eles têm algo intrigante em comum: protagonistas masculinos).

Setenta e cinco por cento dos escritores de ficção científica são homens. Consequentemente, não há um grande número de personagens femininos que sejam realistas ou com os quais seja possível se identificar. Não é à toa que, tradicionalmente, menos leitoras consideram o gênero gratificante, em comparação com os homens. De fato, a crítica e escritora de ficção científica feminista Joanna Russ  tem sua famosa afirmação de que não há “mulheres reais” na ficção científica, apenas imagens delas, já que tantas personagens mulheres são baseadas meramente em fantasias masculinas.

Ano passado, Liz Lutgendorff, leitora de ficção científica, publicou um artigo na New Statesman depois de ler a lista dos top 100 de ficção científica e fantasia da National Public Radio — votada por 60 mil leitores. Lutgendorff declarou que o “sexismo contínuo e generalizado” nesses livros é “misógino” e “escandalosamente ofensivo”.

A crítica e escritora de ficção especulativa Sarah Gailey, nesse meio-tempo, notou que, em suas leituras recentes, dos 31 livros do gênero que continham protagonistas femininas, dois terços incluíam cenas de violência sexual. Ao escrever no site Tor, ela desafiou os escritores do gênero a “melhorarem” no quesito imaginação de realidades alternativas para mulheres:

“…nossa incredulidade não pode chegar ao ponto de apagar uma eventual misoginia dos mundos que construímos. Podemos admitir um mago em uma nave secular movida a vulcão, mas recusamos a ideia de que uma mulher possa se sentir humilhada ou com medo.”   

Gailey menciona a vencedora do Hugo deste ano, NK Jemisin, como uma das raras escritoras cuja “imaginação é forte o suficiente para permitir que as histórias dos seus personagens femininos não incluam violência sexual”.

E ainda, infelizmente essa objetificação da mulher na ficção científica se estende para além dos livros. O ganhador do prêmio Hugo de melhor escritor-fã, Jim C. Hines, nos lembra que o superstar da ficção científica Isaac Asimov era conhecido por assediar mulheres em convenções. Hines recentemente impeliu a comunidade da ficção científica, da fantasia e dos quadrinhos a parar de “desviar o olhar” do problema de assédio sexual na indústria.

 

Ciência hard na ficção científica

Um debate corrente na comunidade da ficção científica é sobre os méritos da ficção científica “hard” versus “soft”.

Robert A. Heinlein, considerado o “cabeça” dos escritores de ficção científica e citado lado a lado com Asimov e Clarke como uma das três figuras chaves do gênero, definiu ficção científica como:

“Especulação realista sobre possíveis eventos futuros, baseados substancialmente em um conhecimento adequado do mundo real, passado e presente, e em uma compreensão aprofundada da natureza e significância do método científico.“

A ficção hard science tende a manter ou extrapolar teorias científicas reais ou leis da física como elas são compreendidas atualmente, como em Perdido em Marte (2011) de Andy Weir, Contact (1985) de Carl Sagan, ou 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) de Arthur C. Clarke.

A ficção soft science não está preocupada em explorar os detalhes mais refinados da tecnologia e da física. Embora suas histórias se passem geralmente no futuro, esse tipo de ficção científica está mais interessado em aspectos psicológicos e sociais da narrativa, como em Divergente (2011), de Veronica Roth, O Conto da Aia (1985), de Margareth Atwood, ou 1984 (1948), de George Orwell.

A ficção hard science tende a ser um Clube do Bolinha, enquanto a soft science se mostra mais acolhedora para escritoras. Há uma perceptível hierarquia de mérito nessas classificações também: “hard” soa masculino e viril, enquanto “soft” tem uma conotação de fraqueza, de menor potência, de uma forma feminizada do gênero. É por isso que a vertente “hard” tem mais chances de ser considerada como as “melhores” ficções científicas, e a “soft”, com mais mulheres escritoras, são selecionadas com menos frequência.

O Conto da Aia, de Margaret Atwood.

Em 2013, os jurados do Prêmio Arthur C. Clarke, o mais respeitado da Grã-Bretanha, desqualificou determinados livros submetidos sob o argumento de que não eram “tecnicamente” ficção científica. Eles foram considerados pelos jurados como obras de fantasia — gênero que não requer o realismo da ciência e que tem o dobro de autoras mulheres.  Como observado por Damien Walters, a escrita das mulheres é “dispensada como fantasia, enquanto à dos homens é conferido um status superior como ficção científica”.

O Prêmio Hugo, como a maioria dos prêmios literários, foi tradicionalmente dominado por livros escritos por ou sobre homens e garotos.

Em 2015, os Sad Puppies foram bem-sucedidos em colocar dezenas de livros na votação final. Eles, então, elaboraram em tom jocoso os Termos da Rendição para sua guerra cultural com o Prêmio Hugo declarando que:

“…apenas as obras que incorporam os maiores princípios de Robert A. Heinlein serão permitidas. Garotas que lêem Crepúsculo e livros semelhantes serão expulsas do gênero. Nós reconheceremos Jogos Vorazes como um romance SF respeitável, mas as sequências estão fora.“

Essas piadas revelam um tom sexista, intolerância à diversidade e desdém pelo tipo de ficção especulativa que é escrita por mulheres e lida por garotas.

 

As lições de Frankenstein

A hierarquia do quão “hard” é uma ficção científica, além de ser uma forma duvidosa de juízo de valor, coloca mulheres em uma nítida desvantagem. Há uma séria escassez de mulheres trabalhando na ciência. Apenas 28% dos cientistas pesquisadores do mundo são mulheres.

Se as mulheres não são encorajadas a seguir carreira nas áreas científicas, é improvável que venham a ter confiança para escrever em um gênero que usa a ciência como uma plataforma de lançamento.

E isso ainda que o primeiro exemplo de ficção científica frequentemente citado seja o horror gótico de Mary Wollstonecraft Shelley, Frankenstein — a história de um homem que, através da experimentação científica, descobre como dar vida à matéria inanimada. O romance foi publicado anonimamente em 1818.

No geral, o livro foi popular e bem recebido. Porém, quando os críticos descobriram que o anônimo era uma jovem, o gênero da autora causou tanta ofensa a ponto de tornar o texto irrelevante. O British Critic concluiu em sua conhecida e contundente resenha:

“O escritor do livro é, sabemos, uma mulher; isso é um agravante daquilo que é a falha predominante do romance. Mas se nossa autora pode esquecer a delicadeza de seu sexo, isso não é motivo para fazermos o mesmo. Portanto, dispensaremos o romance sem mais comentários.”

Discriminação com base no sexo não é surpresa para aquele tempo, mas o que é surpreendente é como tão pouco mudou para a literatura feminina nesses últimos dois séculos.

Pode ser bastante improvável que mulheres publiquem anonimamente nos dias de hoje, mas é provável que ainda apaguem suas identidades para evitar conflito com os leitores do sexo masculino. Muitas são encorajadas a publicar apenas com suas iniciais, a escolher um nome de gênero neutro, ou até mesmo adotar um pseudônimo masculino.

A escritora de ficção científica Alice Sheldon, ganhadora de dois Hugos e três prêmios Nebula sob o pseudônimo de James Tiptree Jr., fez sua escrita passar por masculina por aproximadamente uma década entre 1967-77 antes de ser descoberta como mulher.

James Tiptree Jr. era o pseudônimo masculino da escritora Alice Bradley Sheldon.

Não somente teve mais sucesso como um escritor, mas também estava em uma posição melhor para defender as escritoras femininas. Ela inclusive descobriu que seu pseudônimo feminino Raccoona Sheldon tinha mais chances de ser incluído em antologias se ela submetesse uma carta de recomendação de Tiptree junto.

Infelizmente, depois da revelação de que Tiptree era, como ela lamentavelmente se descrevia, “nada além de uma velhinha de Virginia”, ela perdeu muito da autoridade e respeito que antes tinha na comunidade da ficção científica dominada por homens.

Atualmente, ainda é fato que a maior parte das escritoras estaria em uma situação melhor usando um nome masculino. Em 2015, a romancista emergente Catherine Nicholls descobriu que quando ela mandou seu manuscrito sob o nome de “George”, ela foi oito vezes mais bem-sucedida do que quando enviou como “Catherine”.

Mais da metade da raça humana são mulheres, ainda assim três quartos das vozes ouvidas na ficção científica são de homens — e o resto está sob uma pressão comercial consistente para parecer masculino também. Dos trinta escritores de ficção científica nomeados pela indústria com a honra máxima de “Grande Mestre”, apenas cinco são mulheres (16%).

Um estudo sobre os hábitos dos leitores em 2014 descobriu que homens “tendem a ler mais obras de homens”. Durante o primeiro ano de publicação, o estudo concluiu que a audiência de uma escritora será por volta de 80% feminina. A obra de um escritor será lida por 50% homens e 50% mulheres.

Confrontar esse problema com pseudônimos ou iniciais perpetua a invisibilidade das mulheres nas prateleiras, negando a outras escritoras exemplos a serem seguidos. É de vital importância ter mais mulheres na ficção científica — que usem seus nomes reais, sejam criticadas, lidas e ganhem prêmios.

 

Aos números

Ambos os grupos Puppies se posicionam contra ações afirmativas como forma de compensar o desequilíbrio entre os gêneros na ficção científica. Entretanto, há muitas razões pelas quais ações afirmativas vindas de editores e críticos são necessárias em um gênero que sofre de um sexismo inerente.

O último SF Count — a mini-versão da comunidade VIDA Count, que especula sobre o número de mulheres nas artes literárias no gênero sci-fi — foi anunciado em maio de 2016. O SF Count mapeia o balanceamento de gênero e de raça tanto de livros resenhados como de seus resenhistas.

Foi verificado que seis em cada dez livros resenhados foram escritos por homens. Porém, isso é a média dos resultados de todas as publicações, e há uma grande variação na amostra. A porcentagem mais baixa de resenhas de livros por mulheres foi de 17%, da Analog Science Fiction and Fact. A mais alta foi de 80% da Cascadia Subduction Zone, uma publicação que almeja especificamente representar as escritoras.

Jogos Vorazes, de Suzanne Collins.

Essas deduções mudam bastante quando leva-se em consideração que apenas cinco revistas são focadas especificamente em ficção científica — Analog Science Fiction and Fact, Asimov’s Science Fiction, New York Review of Science Fiction, Foundation: the international review of science fiction e Science Fiction Studies. Nessas, a porcentagem média de resenhas de livros escritos por mulheres é de 22%, o que significa que mais de três a cada quatro livros resenhados em revistas de ficção científica são escritos por homens.

A estimativa de gênero dos críticos com base na média desses cinco títulos é igualmente baixa, com apenas 18% deles sendo mulheres. O que é particularmente surpreendente é que as revistas de ficção científica, talvez as mais famosas e respeitadas, Analog e Asimov’s, ambas apresentavam 0% de críticas mulheres. O fato de que duas das mais célebres revistas convidaram nenhuma mulher para resenhar livros é evidentemente inaceitável.

E sim, críticas podem apontar a impossibilidade de resenhar o que não foi publicado, assim como editores podem alegar a impossibilidade de publicar mais obras femininas quando estas não são submetidas, e os júris podem lamentar a impossibilidade de considerar mais obras femininas para prêmios enquanto tão poucas são inseridas.

Mas seria muito melhor para a indústria da ficção científica reconhecer que possui uma responsabilidade ética de corrigir imediatamente o desequilíbrio que perpetuou por tanto tempo.

Procurar ativamente novas obras, como a editora veterana Danielle Pafunda aponta, e moldar o direcionamento de uma revista ou editora é uma parte importante do trabalho do editor.  

Precisamos que as mulheres possam participar integral e igualmente nas discussões sobre o futuro da humanidade na ficção científica — para moldar como as mulheres são retratadas nessas perspectivas, para ponderar sobre que papéis as mulheres podem ter nesses futuros, e para imaginar o que uma sociedade avançada e evoluída de verdade pode representar para as mulheres.

Até que a igualdade de gêneros seja conquistada, a ficção científica continuará sendo apenas uma fração do que poderia ser. Ação afirmativa para mulheres na ficção científica não é apenas justificada, mas essencial para a evolução do gênero.

PhD Docente de Escrita Criativa, Universidade de Flinders
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