A tradução literária é antiquíssima (a Bíblia é um ótimo exemplo) e é improvável que desapareça tão cedo. São Paulo escreve suas epístolas, por Valentin de Boulogne, 1618.

Alguns podem achar que o tradutor literário é uma espécie em extinção, como os fabricantes de caneta de pena, presumindo que computadores eventualmente assumirão a função. Podem esperar sentados. A tradução autônoma tem uma função — que sem dúvida está em ascensão — mas está condenada à literalidade, a simplesmente permear a superfície. Peça ao Google Tradutor uma versão para a frase “Podem esperar sentados” em qualquer língua. Você vai obter um educado convite para, por favor, se sentar.  O toque humano é necessário para entender diferentes sutilezas de significado dentro do contexto e criar algo prazeroso de se ler.

Mesmo assim, o processo é um golpe no ego principalmente porque, como tradutor, somos constantemente lembrados de nossas limitações: há toda uma gama de eventos e interações descritas no texto original que desconhecemos por completo, ou que nunca vivenciamos. Ou ainda, ambicionamos reproduzir a sagacidade, o ritmo, e a beleza do original, mas, por inúmeras razões, precisamos nos contentar com muito menos.

A humildade também é uma necessidade prática. Quando o original não faz muito sentido, normalmente, o primeiro impulso é culpar o autor. A humildade nos permite ver o texto original sob uma nova perspectiva — apreciando-o pelo que ele é em vez de pelo que você acha que deveria ser. Se encararmos uma frase confusa partindo do princípio de que está deixando passar alguma coisa, normalmente estaremos certos. Minha primeira regra, portanto, seria: parta do princípio de que você está errado, não o autor.

Colaborei com a escritora japonesa Minae Mizumura na tradução de seus livros, incluindo o recém-lançado The Fall of Language in the Age of English (Columbia University Press, 2015) [A decadência da linguagem na Era do Inglês].

The Fall of Language in the Age of English (A Queda da Linguagem na Era do Inglês. Columbia University Press, 2015) alerta contra a proliferação descontrolada do inglês.

The Fall of Language foi primeiro traduzido por Mari Yoshihara, professora na Universidade do Havaí que também fez o contato com a editora. Mizumura então pediu revisarmos o livro inteiro juntas — para incorporar alterações e fazer o texto mais acessível e relevante aos leitores de fora do Japão. O livro explora a importância da literatura nacional e adverte contra a proliferação descuidada da língua inglesa, lamentando que não apenas nuances, como também “verdades” — acessíveis apenas em outras línguas — correm o risco de serem perdidas. Verter um livro como esse para o inglês pode parecer perverso, mas enfatiza o problema de que, nos dias de hoje, ideias apenas se disseminam se expressas em inglês.

Durante o trabalho com os dois livros, Mizumura e eu estabelecemos uma rotina.

Primeiro, gasto o tempo que for necessário para produzir um esboço. Normalmente traduzo sozinha, geralmente das 9h às 15h.

Com o esboço pronto, Mizura e eu o revisamos separadamente, fazendo mudanças preliminares e comentários. Depois, sentamos juntas e passamos horas discutindo, apurando, pesquisando e reformulando.

No final do dia, vou para casa e reviso o resultado do trabalho (em uma ocasião, com um prazo a cumprir, nosso “dia de trabalho” acabou às cinco horas da manhã). Quando nosso cérebro se exaure e entra em estado vegetativo, passamos a nos encontrar dia sim, dia não, em vez de todos os dias.

O número de esboços varia, mas cada pequena melhoria, cada escolha que nos deixa mais próximas do resultado que idealizamos, faz do processo um prazer crescente. Ainda mais por ser a tradução de uma autora da envergadura de Mizumura.

O processo de reescrita requer foco na mensagem principal do autor (ou na emoção do personagem) e a garantia de que ela seja transmitida como pensada originalmente. É como dar vida a uma partitura: você presta atenção à cadência, à dinâmica musical, às frases e, acima de tudo, busca obter como resultado não um amontoado de notas, mas música. Se uma figura de linguagem não funciona bem no idioma de chegada, melhor mudá-la ou omiti-la. Veja o exemplo abaixo, tirado do The Fall of Language:

Esboço: Assim, como uma constelação de estrelas no céu, a literatura japonesa moderna é repleta de escritos que conferem uma fragrância da “realidade” do Japão atual, e também contém as verdades apenas visíveis por meio da língua japonesa.

Versão final: Assim, a literatura moderna japonesa comporta tamanha diversidade linguística e encanto literário que chega quase a ser um desperdício. Além disso, carrega “verdades” visíveis apenas por meio da língua japonesa. (p. 153)

Em outro texto, ao descrever a beleza de tirar o fôlego de jovens naturais do estado americano de Iowa, Mizumura escreveu que elas pareciam ter saído de “Filmes de propaganda nazista.” Para leitores ocidentais, este é um elogio duvidoso (na melhor das hipóteses), mesmo que nos ajude a visualizar uma figura alta, de corpo esguio e cabelos dourados. Ela não quis remover a frase — é avessa ao politicamente correto, coitada — então chegamos a um acordo: “Pessoas que, secretamente pensei, seriam a escolha ideal para representar membros da juventude hitleriana nos filmes de propaganda nazista — apesar de elas, provavelmente, não aprovarem a comparação — andavam pelo campus a passos largos e majestosos”. (página 25)

Será que eu introduziria esse complemento por conta própria? Claro que não. Mas, ao contrário de Lydia Davis — que recentemente traduziu Madame Bovary de Flaubert — eu pude consultar a autora.

Estes são apenas algumas das infinitas escolhas que tradutores, literários ou não, são obrigados a fazer. Ao tradutor é confiado muito poder. Tato e discrição são fundamentais. Da mesma forma, respeito pela opinião e visão do autor, vivo ou morto, é essencial.

Conseguir que uma frase ou um diálogo soem exatos — tão exatos que pareçam inevitáveis — é extremamente satisfatório, e até mesmo empolgante.

Agora, minha pergunta a você: como isso pode ser massacrante?

Professora de Inglês no Doshisha Women's College of Liberal Arts.
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