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Gostar de literatura infantil não é vergonha

Quando a saga Harry Potter se tornou um fenômeno mundial, foram publicadas versões adultas que substituíam as capas originais com ilustrações alegres por fotos sóbrias de objetos inanimados em fundo preto.

J.D. Salinger, autor de O Apanhador no Campo de Centeio.

 

As editoras entenderam a necessidade de atender à demanda de adultos interessados em uma saga de fantasia sobre um menino bruxo, sem que as pessoas no trem os julgassem superficiais ou infantis.

Um artigo recente da Slate, revista estadunidense de notícias e cultura, sugeriu que adultos deveriam ficar constrangidos por ler livros comercializados como ficção “infantojuvenil”.

Independentemente dessa sugestão bastante questionável de que algum tipo de leitura seja constrangedora, por que a faixa etária presumida do público de um livro deveria determinar se uma leitura é “embaraçosa”?

Além disso, como distinguir livros para jovens de livros para adultos? Muitos clássicos infantojuvenis populares, como O Apanhador no Campo de Centeio de J.D. Salinger, foram originalmente escritos para o público adulto. Ao mesmo tempo, obras canônicas incluindo Jane Eyre de Charlotte Brontë e Oliver Twist e Grandes Esperanças de Charles Dickens têm atraído leitores jovens desde suas origens na era vitoriana.

A literatura infantil se desenvolveu para cumprir objetivos didáticos. John Newbery, editor pioneiro em literatura infantil do início do Século 18, tinha como objetivo proporcionar “instrução com prazer” nos livros que publicava. (Ele é responsável por The History of Little Goody Two-Shoes, variação do conto Cinderela.)

A leitura era vista tanto como algo essencial para a educação das crianças como também uma forma de lazer. O privilégio do entretenimento ou “o prazer” são relativamente recentes. A literatura infantil mais antiga muitas vezes parece desinteressante para o leitor moderno por causa de seu foco moral e educativo.

Desde a “era de ouro” da literatura infantil, na segunda metade do Século 19, o didatismo foi reduzido e a barreira entre livros para adultos e crianças se tornou permeável. Livros — e peças, como Peter Pan, de J. M. Barrie — satisfaziam e satisfazem tanto o público infantil quanto o adulto.

Lewis Carroll criou originalmente As Aventuras de Alice no País das Maravilhas para presentear Alice Liddell, de doze anos de idade, mas após publicada a obra se consolidou junto a uma audiência permanentemente híbrida de adultos e crianças.

A Ilha do Tesouro e Raptado, ambas obras de Robert Louis Stevenson, foram inicialmente publicadas pela revista Young Folks e eram classificadas como “livros de menino”. Ainda assim, Henry James e Arthur Conan Doyle publicaram resenhas ou comentários sobre essas duas novelas que atualmente seriam vistos como formas de rejeição a livros infantis.

 

Mark Twain, o polêmico autor de Tom Sawyer e Huck Finn.

Em 1905, duas novelas de Mark Twain foram considerados inapropriadas para bibliotecas infantis. Em resposta, Twain afirmou que escreveu “Tom Sawyer e Huck Finn exclusivamente para adultos”. O autor apontou que a versão sem censura da Bíblia também deveria ser removida da seção infantil para prevenir que ela “manchasse” as mentes em formação, zombando da noção de blindar os mais jovens de uma literatura que contém personagens “não muito diferentes de Salomão, Davi ou Satã”.

Se “livros exclusivamente para adultos” é um conceito ligeiramente ridículo, o mesmo serve para “livros exclusivamente para crianças”. Adultos são autores de livros infantis e frequentemente escrevem para agradar ou entreter outros adultos. A possibilidade de uma audiência mista é prontamente aceita em animações infantis de sucesso, nas quais piadas e referências que somente o público adulto entenderia pontuam o enredo.

Hoje em dia, adultos consomem ficção infantojuvenil em uma proporção tão grande que talvez o público leitor primário destas obras nem seja mais os jovens. Ainda assim, ao mesmo tempo em que adultos leem A culpa é das estrelas, Crepúsculo e Jogos vorazes, permanece a incredulidade frente à ideia de que tanto jovens como adultos possam gostar e se divertir com o mesmo livro.

Capas da série Crepúsculo.

Em vez disso, há uma culpa associada à leitura de literatura infantil. Essa vexação perde qualquer fundamento quando a literatura juvenil bem escrita e intelectualmente desafiadora — como as obras de Philip Pullman e Sonya Hartnett —, é rejeitada indiscriminadamente. Mesmo clicheresca, estereotipada e mal escrita, a ficção “adulta” não carrega esse mesmo constrangimento.

Tais argumentos contra adultos leitores de títulos infantis ou infantojuvenis frequentemente limitam o número de livros disponíveis na vida de uma pessoa, uma vez que o tempo gasto com literatura “inferior” diminuiria, em tese, a chance de ler Proust ou bravamente terminar Ulisses. No entanto, esse argumento sobre perder tempo lendo livros infantis raramente é aplicado a bestsellers populares como Cinquenta tons de cinza ou O código Da Vinci.

A verdade é que o leitor sofisticado vai querer provar os livros mais atraentes, criativos e marcantes do passado e do presente. Alguns deles serão difíceis e cheios de alusões complexas. Outros serão agradáveis ficções que seguem uma fórmula previsível, mas satisfatória.

Sempre deverá haver espaço para Alice, Peter, Dorothy, Anne, Holden, Katniss e as irmãs March.

 

Michelle Smith é professora sênior de Estudos Literários na Monash University, onde leciona sobre contos de fadas e Literatura Infantil. Uma de suas principais áreas de pesquisa são Literatura e a cultura das meninas vitorianas. Atualmente está concluindo um estudo sobre beleza feminina intitulado Beautiful Girls: Consumer Culture in British Literature and Magazines, 1850–1914 (“Garotas Bonitas: Cultura do Consumidor em Literatura Britânica e Revistas, 1850–1914”). Leia o artigo original no The Conversation. Os artigos do The Conversation estão sob licença Creative Commons e podem ser reproduzidos livremente.

Tradução de Rayssa Féu